terça-feira, 27 de setembro de 2016

A confissão do inconfessável

 Bom dia, boa tarde, boa noite!
 Todos os que amam deviam ser perdoados?
 E aqui vai outra crônica do meu livro CORAÇÃO EM CHAMAS. Você pode adquiri-lo em ebook aqui e impresso aqui.
 Boa leitura!
       
           


            Eu li toda a Bíblia a primeira vez aos quinze anos. Certo, isto não é relevante.
E também isto não tem muito a ver (ou talvez tenha) com o que me tornei.
Terá sido isto que me tornei? Um homem esturricado.
Sempre tive a companhia de bons vinhos e me inebriou a boa comida, como apraz aos bon vivants. Mas, por onde começo se nem sei como tudo começou? Se foi tão suave que não vi chegar, no recôndito proibido, no coração da alma.
         Começo com um pedaço de queijo roquefort.
Eu havia apreciado queijo roquefort, o qual não saboreava havia muitos anos, naquela adorável manhã de sol. E então eu a vi a primeira vez, em hora que não sei precisar. Eu, na verdade, primeiramente a ouvi. Que voz! Digo sem prolegômenos que a voz foi um manto de cetim em meu rosto. Fresca, afável, com a delicadeza de alguma coisa que voejava. Como voejava...! Nem muito aguda e levemente grave, um pouco rouca como se cochichasse. Embora ela também às vezes sussurrasse.
         De alguma forma eu sabia desde sempre que, quando eu erguesse os olhos, estaria então me entregando. Irremediavelmente. Quando me engalfinhei nos labirintos quadráticos daquela mulher, que expunha a alma à minha pobre solidão enfeitiçada, vulnerável, foi como se já no começo não houvesse volta. Nem cura.
         Pois eu ergui os olhos, intimamente avisado de que nunca deveria fazê-lo, e a vi como peças de quebra-cabeça por trás da pífia divisória entre nós. Peças de olhos e nariz e boca, e uma pele tão límpida como a água de um riacho doce na mata virgem. Derramada em mim, refrescante.
Jamais poderei esquecer seus olhos. Olhos grandes e negros, oblíquos e dissimulados como os de Capitu. Teria sido ela minha Capitu? Pude sentir as nebulosas magnéticas de seus olhos nos ferrolhos dos meus. Meus pobres olhos enrugados de mais de meio século. E os dela, de uma pomba selvagem nova. Não tinha trinta anos.
         Seu nariz não apresentava defeito, e o arrebitamento mostrava domínio natural. Não era adunco, como meu nariz italiano, nem grande, como o nariz de uma francesa. Era um pequeno bico de ave bela.
         E sua boca...! Não muito espessa, não muito grande, mas muito úmida cor de amora. E às vezes parecia uma cereja. E quando a boca se movia, como gomos de bergamota do céu, eu já quase não a ouvia. Eu era só estarrecimento. Eu ardia.
         Ah, devo dizer que eu sou um padre. Há aproximadamente quarenta anos, um sacerdote do Santo Deus a cumprir votos à Santa Igreja. Entrei no seminário aos dezesseis anos (nem explorei o mundo).
         Não fossem os olhos negros da pomba! De Capitu! Mais negros na pele alva, que até parecia nunca ter sido maculada.
         Mas ela era uma senhora compromissada com o voto do matrimônio. Uma só carne diante do Senhor Deus, até que a morte a separasse. Carregava uma grande aliança dourada na mão esquerda, cujo fulgor logo percebi não poder enfrentar.
         Nem mesmo o fulgor negro de seus olhos, que tinham poder de redemoinho.
         Não direi sob nenhuma hipótese seu lindo nome, que, quando pronunciado, é como solo de flauta. Não ouso pronunciá-lo.
Os padres têm um voto de confidencialidade a cumprir, e coisas como estas se levam para o túmulo. Mas quero explicar por que me tornei o que sou.
         Pois bem, estive falando com excessivo recato. Excessivo recato têm os eclesiásticos, pretendendo talvez neutralizar suas entranhas vulcânicas, suas vontades mais íntimas, suas humanidades, enfim. Não posso falar por eles, falo por mim. O fato é que eu sou um homem sujo. Eu cometi o pecado capital da luxúria com a naturalidade de respirar. Comecei com ela, a luxúria, e alcancei quase todos os outros seis pecados capitais. Tal pecado me tornou seu escravo, de maneira que eu já não vivia sem sua esbórnia.
Eu me tornei um homem imundo. Não melhor que um incestuoso, eu havia me casado com Deus!
Eu sou um homem sujo porque, com todas as forças, desejei e imaginei e possuí em pensamento aquela Capitu, aquela Dalila, aquele demônio que me venceu com tanta sutileza.
Ah, esqueci-me de falar de suas mãos! Como duas aves brancas pairando por vezes em seu rosto, quando me concedia ela o delírio breve de vê-las pousarem. E aquelas mãos, eu as tive em mim milhares de vezes em mente impura, não santificada ao Senhor. Devia eu ter me santificado no começo, nos primeiros beijos no berço do imaginário, e não seria agora tarde demais para voltar ao Paraíso.
         Agora é tarde demais...
         Deus, como pequei! Não assediei crianças, não fui pederasta, não coabitei ou engravidei, mas desejei com a magnitude do universo aquela mulher! Eu a desejei a cada instante. E, como sujo que era e sou, com a força de meu amor eu pensava em deixar a batina um belo dia e fugir com ela para qualquer lugar, onde eu satisfaria todas as suas vontades e não a veria mais chorar. Ela falava em desamor e traições de um bêbado, e ele nem mesmo reparava em como ela se esforçava para agradá-lo. Ela vinha me confiar as canalhices de seu ilustre marido, vereador na cidade com fama de benevolente e pai dos pobres. Ora, benevolente! Por vezes eu estive a um segundo de fazer uma ligação ou escrever uma carta que o reduzisse a pó, aquele salafrário... cujo maior delito era ser proprietário de meu sonho. Dos olhos negros de pomba.
         De Capitu.
Eu toquei seus seios, eu beijei seu ventre, eu conheci os segredos de todos os seus membros enquanto o cetim da voz me cobria de êxtase. E veio o tempo em que não sentia mais remorso por já ser o pecado minha razão de viver. O pecado capital! Imperdoável aos olhos do Pai. Por causa do pensamento, violentei vários Mandamentos do Senhor: cobiçar a mulher do próximo, furtar meus princípios, ter outra deusa diante de Deus, fazer dela imagem esculpida no coração, cometer adultério com o Pai, dizer falso testemunho contra o próximo... e matar. Este último pecado explicarei melhor.
É que, inicialmente sem perceber, eu fui vítima de meus instintos animalescos e de meus sentimentos opróbrios; dissimulei aquela mulher de seu caminho santo. Pois em vez de, como bom sacerdote, exortá-la a manter o voto sagrado do casamento diante do Senhor, como pastor que cuida da sua ovelha, eu a chafurdei em minha própria lama de alma perdida. Tornei-me capaz de renegar ao Senhor por aqueles gomos de bergamota do céu que se moviam falando, e aquela pele cuja textura eu experimentava só de vicejá-la.
Tão cruel eu fui enquanto recomendava Pai Nossos e Ave Marias a ela que, como o jovem Dorian Gray no clássico de Oscar Wilde, vejo-me um monstro deplorável no fim. Terá minha alma ainda salvação? Creio que não...
Houve um dia em que os olhos negros de pomba, com a boca cítrica, me disseram que ela iria embora de casa. Qual não foi minha demoníaca felicidade a de saber que agora eu poderia... poderia o quê? Se jurara a Deus castidade e devoção total. Eu já ultrapassara a barreira frágil da sensatez. Um coração é um leão na iminência de acordar, pretende devorar.
Mas ela não foi. Duas semanas se passaram, um mês, dois meses... Das carolas mais assíduas, ela costumava se confessar ao menos uma vez por semana. Nos outros seis dias eu me desgastava esperando-a engaiolado nas paredes vetustas da igreja. E já nem ouvia as demais confissões, no hermetismo distante do entorpecimento. Como se eu fosse outro, um animal. Pode um padre contemplar todas as noites o corpo sagrado e intocável de uma mulher casada? Pode um padre... amá-la? Como um homem, e não um sacerdote ama uma mulher.
Pois foi que de repente vi que a amava e, como presumira na primeira vez em que a encontrara, não haveria volta. Desde que eu erguera os olhos e a vira, e me deparara com o anjo-demônio quadriculado e perfeito para meu devaneio, eu estava entregue. Perdi-me, o Príncipe das Trevas me venceu, vou ao inferno, imperdoável e miserável sobre uma garrafa vazia de rum, mas me deixe antes terminar.
Eu estou preso. Esta cela fede, mas eu mesmo a contamino com o odor fétido da maldade. Exalo por todos os poros a essência de Caim e a putrefação de Sodoma e Gomorra.
Eu estou preso porque matei um homem e uma mulher, com balas certeiras, uma em cada cabeça. Eles dormiam, eu estourei seus miolos e o próprio demônio me possuiu, como a Judas, quando senti súbito alívio. Quis gargalhar. Lembrava-a dizendo que amava o marido com todas as forças, apesar de tudo, e o amaria para sempre. Era legítimo meu sofrimento ao vê-la inatingível. Ela me matou antes! Ela me matou antes... Pois, agora, amá-lo-á para sempre nos braços ternos do Senhor, e eu vou ao inferno com alma imunda de assassino pecador. Sinto as chamas gritando meu nome, Deus já não me ouve.
Não tenho certeza se foi ela capaz de sentir qualquer coisa, mínima coisa por este velho padre cujo coração está condenado. Já não posso almejar nada, se entreguei meu coração desprezível ao tribunal do Senhor. A meu favor, não fui hipócrita, como muitos. E não fui falso comigo mesmo. Formidável defeito teria sido minha perfídia! Sofrem, e fazem sofrer menos os falsos, que até a seus verdadeiros desejos ludibriam.
Consegui esta garrafa de rum por meios escusos, a fim de escrever minha carta.  De despedida? Uma troca de favores, em qualquer lugar se consegue um acordo para aplacar a dor. Não a dor do pecado, porque a lama da minha alma já enterrou a culpa e me conformou. A dor, a maior dor final minha é a de não tê-la tido, e nunca poder tê-la... Ela não estará no inferno. Busquei o alívio de não mais vê-la e não ter a ânsia de tocá-la. Suplício!
         Vendi minha alma ao diabo por amor. Não vale nada meu amor, e eu me tornei um louco. Mudei apenas de prisão: antes confessionário, agora cela. Que diferença faz? Se minha alma sempre esteve presa a ela, e ela ainda está aqui. Talvez pedindo a Deus misericórdia de mim...
         Não cobiçai o amor alheio. Não escutai demais... não erguei os olhos.
         Eis minha carta de despedida. Uma corda e uma cadeira me esperam, entrego minha alma à sentença irrevogável do Santo Deus.
         Não me arrependo de ter amado, e ainda amar, e meu destino não ultrapassará o purgatório.
         À minha amada, peço perdão por tê-la levado a Deus mais cedo.
         “Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu... Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos...”.
         Livrai-me do pecado inconfessável do amor!
Amém.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Noite na Taverna

 Olá leitores!
 Finalmente o blog vai ser reativado! Só estou com problemas no botão de curtir e compartilhar do Facebook, mas estou vendo isso, ok?
 Para quem não sabe, tenho um livro de crônicas de histórias polêmicas de amor: CORAÇÃO EM CHAMAS. Você pode encontrá-lo aqui em ebook e aqui em capa comum. E aqui vai uma das crônicas, macabra e misteriosa, em homenagem a Álvares de Azevedo que escreveu um conto com o mesmo nome: NOITE NA TAVERNA.



 Noite na taverna

Seria uma noite mansa e agradável, estrelas cintilantes e lua cheia como vigiando a cidade; não estivesse esta envolta em uma névoa gélida de infelicidade e solidão. Aprisionada nas meninas de meus olhos como uma lenta melodia, uma saudade, um poema de despedida.
Estamos no ano de 1852, precisamente, em uma viela um tanto lúgubre cujo único ponto de luz e vida é uma taverna conhecida por todos os boêmios da região. Seu dono é um gaulês, homem de proeminente barba ruiva, expressão de poucos amigos e, para amedrontar ainda mais, vultoso como um viking. Guarda uma espada na parede atrás do balcão, que afirma pertencer à família há milênios e ter ajudado a derrotar o Império Romano. Ronald é seu nome, é um sujeito misterioso e dizem que vem de Praga. Suas bebidas, corre à boca miúda, são as melhores. Há quem diga que as envenena com chumbo de um adoçante usado pelos romanos, que teria inclusive enlouquecido o Imperador Calígula.
Na Taverna do Gaulês, o furdunço vai madrugada adentro. A fumaça de charutos e cigarros perpassa cada rosto, a embriaguez do absinto, sorvido aos poucos, comove um coração em exílio. O absinto foi inventado por um médico francês no século XVIII e é uma das bebidas mais embriagantes de que se tem notícia. Há que se ter cuidado com a loucura do absinto, mas também ele consola uma alma em desespero.
Sozinho em uma mesa redonda no canto da taverna, pensamentos degradantes me assaltam. Fere-me uma perda irreparável. Uma moça com quem iria me casar. Seu pai proibiu terminantemente nosso casamento nesta mesma noite. Em poucos dias, a filha vai para um convento. O nome dela é Madalena e eu a amo com todos os meus suspiros. Eu quis propor a ela uma fuga, mas a donzela infame não me quis ouvir. Ela tem medo do pai, como um homem teme um lobo feroz. De fato, é assim o pai dela. Um animal. Uma fera em pele de fidalgo. Disse ele que eu era sujeito pobre demais para me casar com sua filha, e, assim, preferia uni-la ao Senhor a entregá-la a um futuro desgraçado comigo. 
         Eu fui humilhado e me roubaram toda a honra esta noite.
Vejam, eu venho de família humilde. Baixa burguesia. Tintureiros.
Eu, naquela taverna intumescida por luxúria e emoções exacerbadas, sou um poeta e também estudante de Direito. Fui colega e, creio, melhor amigo, de Álvares de Azevedo, o grande romântico. Mas Álvares há poucos dias se foi. Doeu-me, sinceramente. Sei que tombou de seu cavalo no Rio de Janeiro, em férias, e se lhe agravou a saúde. Já largara o curso por convalescença. Disse-me ele, escrevendo, sentir o bafejo da morte próximo de seu peito.
Meu bom amigo Álvares é que me falou desta taverna. Uma vez a conheceu com um tio, sei que apreciava as desventuras da noite, embora em secreto. A Taverna do Gaulês. Contou-me, poucos dias antes de fenecer, estar apaixonado por uma moça portuguesa cujo pai prometera a um barão. Uma moça belíssima, disse que me iria apresentá-la em breve. Recitou-me meu amigo um poema seu, “Lira dos Vinte Anos”, logo antes de viajar para a terra de seus pais onde, precocemente, faleceu. Sonhando.
         Quero eu contar a meu bom e sensível amigo de minha tristeza, entender-me-ia e beberíamos com o diabo para esquecer. Eia, bebamos! Mas também Álvares se foi, e tudo se foi nesta noite na Taverna do Gaulês.   
Eis que estou sozinho em uma mesa recôndita com um copo quase vazio de absinto, cruel redentor. Parece esfriar, embora seja verão. Da janela miro a lua cheia, tão fulgurante que amedronta. Já me corre a embriaguez nas veias, não mais me é claro o fato ou o pensamento. O amor ou o ódio.
Levanto os olhos. Não estivesse ébrio, assustar-me-ia. Uma figura distinta e sem dúvida intrigante me olha. Rosto magro, macilento, barba escura bem-feita, chapéu negro, veste um fraque embora em uma taverna. Não sorri nem demonstra nenhum movimento na face. Os olhos são de um negro enigmático e abissal. Por um momento eu o examino. Não o conheço, por certo.
         De repente ele sorri. Não recolhe os olhos de mim. Nem quando tira seu chapéu.
Não digo nada. Desejo permanecer em meus devaneios. Fico na cidade ou vou embora? Termino o curso de Direito ou viajo uma temporada a Lisboa? Mas, confesso, sinto-me vítima da curiosidade diante daquele homem de uns sessenta anos. Ele tem ar nobre. Talvez um conde, até um duque. Difícil eu me enganar. Ele acende um charuto. Eu aceito o que me estende, o charuto é divino. Temos um pretexto para uma conversa: charutos. Se é que ele já não o tinha, tendo se sentado à minha frente com tanta naturalidade. 
– Perder é mesmo uma lástima, não é mesmo, amigo? – ele fala sorrindo ainda.
         Sua voz, em meio à algazarra do local, é grave e tranquila. Ele faz sinal à atendente e pede um copo. De quê? Ora, absinto.
Em silêncio aguardamos.         
         A bebida chega, ele não toca nela. Apenas fumamos nossos charutos, ele analisa minha face.
– Quem sois vós? – indago um tanto insolente.
Ele sorri largamente. Mas seu semblante se torna circunspeto. Na fumaça e na mistura de essências da taverna, inebria-me seu perfume adocicado. Um perfume nobre, sem dúvidas. Talvez oriental.
– Podemos ter todos os nomes que nos quiserem dar, meu jovem. – E sorri. – Mas podeis me chamar de... Álvares. Conde Álvares de Connaissance.
Nisso levanto os olhos e engoli em seco. Lembro-me, obviamente, de meu amigo morto há alguns dias. Embora não seja ele o motivo maior de minha desolação. É Madalena, eu bem sei.
– Perdi um amigo com este mesmo nome, Álvares. Um grande poeta, embora desconhecido.
– Mas um dia, meu bom rapaz, tais belas palavras serão coroadas. Crede-me.
– O cavalheiro o conhecia? – Bebo com ânsia.
– Vades mais devagar com a bebida, rapaz. Ou ireis sair daqui carregado. – Ele sorri. Ainda não tocou em seu absinto, que dormita à sua frente. – Digamos, meu jovem, que eu o conhecia, de certa forma. Uma mente brilhante. – Ele assopra a fumaça do charuto.
– De onde o cavalheiro vem? 
– Eu...? De andar pela terra. – Ele tosse. – Mas vejo que o distinto rapaz não parece muito satisfeito. Dinheiro? Trapaça?    
Não respondo. Que falarei, embora ébrio, a um desconhecido que nem sei de onde vem?
– Ou seria... o Grande Mal? – ele arremata.
Olho-o um tanto perturbado.
– Grande Mal?
– Não o conheceis, meu jovem? Ah, vós o conheceis, bem sabeis! Aquele que parte vosso coração e vossa alma. O ladrão da madrugada. L’amour...
– O amor?
         Ele assente. Prossegue com ar sarcástico.
– Eis que é sempre ele, não é mesmo, meu bom rapaz? Reparai: o homem almeja o dinheiro para obter o poder, e o poder para que seja admirado. Eis que a admiração é um grande passo para o amor, vós sabeis. Dizei-me: achais vós que sois um homem digno de admiração? Quem sabe até veneração? Desejam os homens ser como vós?
Mas é claro que não! Eu me sinto o último dos seres da Terra. Sem meu grande amor, sem também meu melhor amigo e confidente, morto. Sem Madalena, a doce Madalena que, para minha ira e desilusão, escolheu obedecer ao pai e não a seu próprio coração. Teve medo de fugir. Ou então não me ama como jurou, malditas mulheres! Eu estou completamente só.
– Creio que não, senhor. O cavalheiro, por outro lado, parece ser um homem muito importante – eu digo. – Connaissance... O cavalheiro tem descendência francesa?
         Eu falo um pouco de francês, sempre foi um divertimento e uma necessidade aprender línguas para mim.
Oui... – Ele sorri. – Tenho todas as descendências, meu jovem.
– A França é um belo lugar, um dia gostaria de conhecê-la. Os poetas! Baudelaire ainda vive! Os grandes! Balzac! Stendhal! Lorde Byron! – As palavras me saltam à boca. Minha paixão pela arte sempre foi notória. – Mas creio ser impossível eu um dia conhecer a Torre Eiffel... sou pobre, se rico fosse não teria esta tristeza em minhas entranhas.
L’impossible, monsieur? Nada é impossível, meu jovem. Basta que vós desejeis. Dizei-me: e se tivésseis todas as mulheres sob vossos pés? Quantas e quando quisésseis? Lindas francesas, brasileiras e portuguesas, virgens intocadas dos mais dóceis beijos e belos corpos e ardentes fogos. E, melhor: todas teríeis, sem sofrerdes por nenhuma. Pensai nessa mocinha, por quem inutilmente sofreis. Pensai!
– Como sabe o cavalheiro que sofro por uma mulher? – Fito-o intrigado. Eu, mesmo bêbado, tenho certeza de ter preservado aquele pungente segredo.
O conde sorri.
– Os olhos não mentem jamais, meu jovem amigo. E, afinal, por que motivo terrível sofre um homem se não pelo Grande Mal? A grande maldição que paira sobre toda a Humanidade.
- Maldição...? – Encaro-o. – A maldição do amor?
- Touché, monsieur. Não é mesmo o amor, quase que sempre, uma malédiction? Uma maldição para nos trazer infelicidade e dor. Dizei-me: quantos homens vós conheceis a quem o amor fez plenos de felicidade por mais que algumas poucas estações? E que, no fim, tenham sofrido as piores calamidades em nome de tal malédiction?  
         Ele recita em voz firme:
        
Tu que, como uma punhalada,
Em meu coração penetraste
Tu que, qual furiosa manada
De demônios, ardente, ousaste,
De meu espírito humilhado,

Fazer teu leito e possessão
- Infame à qual estou atado
Como o galé ao seu grilhão,

Como ao baralho ao jogador,
Como à carniça o parasita,
Como à garrafa o bebedor
- Maldita sejas tu, maldita!

Supliquei ao gládio veloz
Que a liberdade me alcançasse,
E ao vento, pérfido algoz,
Que a covardia me amparasse.

Ai de mim! Com mofa e desdém,
Ambos me disseram então:
“Digno não és de que ninguém
Jamais te arranque à escravidão,

Imbecil! - se de teu retiro
Te libertássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!”[1]

Diante de meu estarrecimento, o aristocrata então sorri.
– Que poema é esse, amigo? – eu indago.
– Ah! Um poema meu. – Ele pisca. – Mas dizei-me, jovem: quereríeis vós a liberdade eterna do cativeiro maldito? Pensai!
Mantenho-me em silêncio. Enraivecido por causa do amor, sem dúvidas. Vem em meu pensamento um poema que uma vez me disse meu bom amigo Álvares de Azevedo, tendo o anotado em um caderno meu.

Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar...![2]

– Não ireis vós me matar! – brado sem me dar conta. – Desculpe-me o cavalheiro, estive pensando alto.
– Não aprouvera a vós a liberdade? O desencanto da maldição do amor?
Soco a mesa. Termino o copo de absinto. Vejo que a estranha figura não tocou em sua bebida!
– Morte ao amor! Morte ao amor!
O sorriso do conde de Connaissance vai de uma orelha a outra. Ele assopra a fumaça do charuto e se inclina para mim, enigmático.
– Dizei-me então: quereis vós a liberdade? Quereis vós terdes tudo o que desejais, sem nunca mais por amor definhar?
– Mas isso é impossível! – retruco, pensando se aquele velho deseja se divertir comigo apenas.
– Nada é impossível, monsieur
         – Suponho já ter vosso coração se estraçalhado nas mandíbulas do amor, para dizerdes tais coisas. Deveis conhecer muito bem as artimanhas do maldito.
– Tendes razão, meu jovem.
– Posso eu saber razão, cavalheiro? – Assopro a fumaça do meu charuto. Meu absinto acabou, encontro-me totalmente ébrio.
– Meu bom amigo, há milhares de anos são as razões as mesmas. Conto a vós um segredo então: nós somos sempre os mesmos. Amor e ódio. Cobiça. O desejo de sermos adorados!
         Penso por um instante. Ecoam-me as palavras do conde. Ergo os olhos para os olhos negros que ele me mira.
Oui, oui! Sim! Eu quero a liberdade! Eu revogo a maldição do amor!
– Vede: ser admirado não é muito mais afável que ser amado? Ter uma, ou várias belas mulheres a vosso lado. Posses, poder, e o principal, conhecimento. Conhecei-vos a vós e sereis o senhor do vosso coração. Apenas a cobiça leva à glória. Apenas a glória dá ao homem o que é dos deuses! O amor é o princípio da violência e da morte.
– Sim... vejo agora, claramente, que o amor se faz sempre uma tragédia. Shakespeare, “Romeu e Julieta”... o amor dos deuses gregos e romanos...
– O amor do Criador, que matou Seu Filho... – Ele sorri com soberba. – Vede Lorde Byron. Deveis vós conhecerdes o grande poeta do amor. O amor maldito, o único verdadeiro. O amor que carrega a perda.
– “A recordação da alegria já não é alegria, enquanto a da dor é ainda dor.” Lorde Byron. O amor é a pior das prisões!
– Dizei-me então de uma vez, olhando em meus olhos, meu bom rapaz: desejais vós não serdes mais escravo do Grande Mal, o amor?
Ele suga meus olhos aos seus como uma serpente encantadora. Até tenho a impressão de, atrás da fumaça, vê-los vermelhos.
– Sim! – eu digo intrépido. E lembro-me de Lorde Byron: – “A vida é como o vinho: se a quisermos apreciar bem, não devemos bebê-la até a última gota.” Não quero a última gota chamada amor! Nunca mais! Liberdade!
         O conde sorri, como lhe é de praxe. Seus olhos cintilam. Levanta o copo de absinto para brindarmos.
         Mas meu absinto... não! Há ainda absinto em meu copo, como por mágica. Ou então eu não vi com clareza antes, ébrio que estava!
         Ergo meu copo, o conde o seu.  
À liberdade! Eia! Bebamos! – Brindamos.
E bebemos.
– Vou contar a vós um segredo... também eu fui amaldiçoado pelo amor. Há muito tempo... – O conde aproxima a face da minha.
– Mas como, homem?
– É uma longa história... 
– Quem afinal sois vós, homem de Deus?
Ele sorri.
– Se monsieur me dá licença, agora tenho de partir. Vou para um lugar muito longe. Mas talvez mais perto do que se possa imaginar. Existem outros brindes... – O conde pisca.
E bebe, e se levanta desaparecendo em meio à fumaça odienta e densa de mistério da taverna. Reparo que não bebeu seu absinto até a última gota.
Após um momento de abstração, dirijo-me ao balcão e indago ao gaulês se o homem que esteve à mesa comigo pagou a conta, caso contrário eu o farei de bom grado. Talvez, na pressa, ele tenha se esquecido. “Homem? Que homem?” – O gaulês corpulento ri. – “Vi o senhor bebendo sozinho a noite toda.” E dá uma gargalhada gaulesa monstruosa. Eu, de repente, não tenho certeza se sonhei com aquela conversa ou a imaginei. E na verdade não importa. Remanesce em mim a sensação de ter encontrado o conde Álvares de Connaissance, suas palavras tamborilam em meu coração.
Eu o encontrei – tenho certeza. E essa certeza jamais se extinguirá.
Quando deixo a taverna, é como se praticamente se desbotasse Madalena dentro de mim. Um dia depois eu me encontro sorrindo outra vez, e não sofro. Secam-se minhas lágrimas. Madalena é apenas um nome como qualquer outro, e todos os nomes são a mesma palavra vã. A partir daquela noite na taverna, não me lembro de ter amado nenhuma mulher, muito menos ter sofrido por uma. Doravante, não me recordo de ter sofrido por qualquer pessoa.
Eu me fiz um pássaro livre. Sem medo. Sem alma. Sim, sem amor. Nunca mais amei ninguém, a não ser a mim mesmo. Fui imensamente contente, e talvez na mesma medida infeliz também. Alegria e felicidade não são iguais verdades. Eu sou um pássaro livre que voa rente ao chão. Que não alcança a última nuvem, e, descendo ao rio, não bebe a última gota. Eu sou uma águia dentro de sua pequena gaiola, graças ao conde de Connaissance – o conde do Conhecimento. “Conhecimento”, em francês, é connaissance, eu descobri há muito tempo.
Estou rico, velho e farto. Envelheço muito devagar. Enriqueço sempre. Não vos digo minha idade, não acreditaríeis. Eu procuro avidamente a última gota em um deserto onde escolhi existir. E não encontro mais o conde de Connaissance para me mostrá-la – e talvez o conde também a procure. Como todos nós que, quando a encontramos, quase morremos afogados. Quem sabe em um copo de absinto. Em uma noite qualquer.
Uma noite na taverna.



[1] Poema “O vampiro”, de Charles Baudelaire, publicado em 1857 no livro Les Fleurs Du Mal – As flores do mal. [N. A.]
[2] Poema “Meu sonho”, de Álvares de Azevedo. [N. A.]

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Eles (Nós)


Eles estão aí, nos bares à meia-luz nas quartas-feiras, bebendo a redentora cerveja, aí nos cinemas sonhando com histórias perfeitas em que sempre tem recomeço, estão nos engarrafamentos do rush ouvindo baladas românticas em armaduras chamadas carros, e eles correm velozes como para chegar logo a qualquer lugar, mas quase sempre não o lugar certo, e estão nas portas das noitadas na madrugada, cigarros baratos com bebidas dóceis que devolvem a alegria cedo perdida, e sorrindo por fora e se afogando por dentro, e um abraço ou um beijo seria uma maneira simples de curar, mas não é tão simples de se encontrar, e abraçando coisas eletrônicas que tem promessas falsas, e eles vegetando em suas casas, quartos-labirintos abrigando instintos incompreendidos, eles estão contando piadas e se sentindo também palhaços, estão cansados, embora tanto corram, formigas, e sabem todas as coisas de sobreviver hoje em dia, mas veja bem, viver não é sobreviver e poucos percebem isso com o impacto necessário, e eles estão então nos shoppings enchendo sacolas como seus corações se encheram de mágoas e tristezas, e estão lendo livros que falam de princesas, e príncipes, e magias capazes de criar outros mundos, e estão mudos, mudos diante de tanto barulho nos outdoors e nos números tão exatos, eles estão esperando alguma coisa, insensatos, todo mundo espera no fundo alguma coisa, essa coisa vem dia e vai dia, vadia, vai indo embora, adeus cruel, mas a vida diz que não é por querer, mas e a culpa por tudo o que você – não – fez, e essa coisa que você procura, eles procuram, nós procuramos, capaz de dar sentido ao que é breve, estranho e até humano, isso chamado vida, isso chamado "eu", isso capaz de saber tudo sem explicar nada, e explicar tudo sem saber nada, isso que de fato é a existência da alma, é apenas isso, milhares e bilhares de almas nas calçadas, isso que a gente procura e às vezes encontra e às vezes até mantém, porque a felicidade aparentemente existe, acreditemos, isso que a gente procura em tudo como impuros cegos, isso, isso que dizem haver nos bares à meia-luz, nos cinemas, nas baladas e nas noitadas, e telas frias inventadas, e casas velhas amarrotadas, isso que eles procuram, que a gente procura e que deve ser a maior loucura imaginável é esse tal de amor, mas onde ele está, e qual é a cura para a própria cura?



Créditos da imagem: We Heart It

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Marés

Desculpem minha ausência do blog, ando muito ocupada com uma coisa chamada vida, e nem sempre a vida tem todas as horas de que necessitamos!

Aqui vai um poema do meu livro A QUEDA DA BASTILHA: MARÉS, um poema para quem está renascendo, mesmo que não saiba bem como e onde vá parar.

Você o encontra na Livraria Cultura e na livraria Saraiva.




Tantas prisões essas que eu fiz, nas noites brancas
de vinho forte de vozes outras...
e a beleza estivera sempre ali, em uma criança
que eu colocara a dormir e a quem renegara um mundo.

E o mundo todo eram marés, limpas marés indo e vindo
sob as infames solas de meus pés...
não bebi da água, não sorvi das nuvens
e não soube que eu era vento
acarinhando longe os cabelos de quem chamo vida.

Tantas prisões essas que eu fiz, de braços ocos 
                                                     sem recomeços
de folhas secas de outono gelo
de egoísmo puro em forma de mudo medo.

Tantas prisões essas que eu fiz de ausências e mistérios
           e inocências tão pueris... eu que sou aprendiz
eu que sou aprendiz de alma e já quase existo...
                                                               Em mim.




quinta-feira, 17 de abril de 2014

Assim


É assim, de repente alguém se vai como se não tivesse vindo, é assim que sobram as fotografias, as pequenas lembranças agora doloridas, olhares gravados a ferro e fogo na alma de quem ficou, é assim, de repente não mais... a presença, a rotina, o cuidado, o ‘como foi seu dia’, ‘como está você’, o despedaçado ‘estou com saudades’, é assim, como disse Vinícius de Moraes, de repente, não mais que de repente é assim que ficam as digitais de outrem no coração sufocado, solitário, mesmo que mil pessoas estejam dentro dele, é assim, é mil menos uma, e essa uma era a essencial, é assim, ficam palavras, que foram ditas e que nunca se pronunciaram, ficam rancores, mágoas, o ‘nunca mais vou amar’, ‘você é um idiota’, ‘não sei como me envolvi’, ‘eu te odeio, eu te odeio, eu te amo, eu te amo, eu te amo’, fica tudo perplexo quando de repente alguém se vai, sem se despedir – mas nenhuma despedida aplacaria nada –, poucas explicações, muitas reticências, para o inferno com as reticências que são sentimentos covardes, mas explicações nunca são o bastante, apenas abraços e beijos, mas esses se foram rápido, demais, e de abraços imaginários já não sobrevive um cansaço, e é assim, alguém se vai, sem querer, acreditemos que sem querer, como se fosse para sempre, mesmo que por uma mínima esperança não seja, alguém se vai para outro planeta, e lembro que até as imperfeições eram perfeitas, os ciúmes e as brigas, as dúvidas que precisavam nos enlouquecer ás vezes para não haver marasmo, a estrada que nos separava, e a estrada era mais no coração que na BR, mas de repente, não mais que de repente você se foi e por isso eu estou indo embora, embora de mim, talvez não de você, nem o amor do fim, nem o não do sim...

Leila Kruger. 17 de abril de 2014.

domingo, 23 de março de 2014

A Beleza

         

         Amante das amantes,
Os olhares todos arrebata,
Lua sol, jovens anciãos, homens mulheres, beatas,
Como vinho ao coração nu embriaga,
Como quer dança na madrugada,
Com quem quer, e de repente se foi embora por só ter querido diversão.
        
         Tecedora da loucura,
Roubadora de almas,
Assassina de reputações, messalina, por vezes,
Veneno com gosto de mel, mel com gosto de fim,
Gelo que queima, fogo que arde, sordidez que teima.

         Vem agora, vai outrora,
         Leva muito, deixa pouco,
         Olhos de cigana oblíqua e dissimulada,
         Capitu tresloucada, amada, insaciada,  
         Feiticeira das eras,
         Beijo de feras,
         Seu nome é segredo,
         Seu lema é desejo,
         Leva embora o que na verdade não deu,
         Apenas amostrou,
         Para sorrir triunfante e, obediente ao Tempo,
         Esmaecer-se noite adentro,
         Noite adentro no coração do vazio.
        
         Por que me inebria
         Se nunca até tarde fica? 
         Beleza,
         Esfinge negra,
         Perséfone e Afrodite,
         Sempre dá adeus.


        Leila Krüger.

        Foto: "Carícia", de Fernand Khnopff.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O Segredo

 

 O mar dormita. As fracas ondas parecem bocejos. Mas na verdade são saudades. Lânguidas saudades de um tempo que foi embora; nem lágrimas nem gritos nem arrependimentos, nada o fará voltar. Nada o comoverá.
 O tempo não volta jamais.
 E você não aproveitou o tempo, não entendeu que nada era impossível quando tinha sonhos brilhantes no peito que às vezes até lhe roubavam o sono.
 E agora, José? 
 Você devia ter insistido um pouco mais. Você devia ter sido mais ousado. Devia ter abandonado aqueles velhos ditados, as vidas clichês que o espreitavam com promessas de segurança sem esperança. Você devia ter acreditado naquela conversa de sonhos, de transcender a vida que se vê. Devia não ter acreditado naquelas nuvens escuras que dizem que "isso não vai dar certo".  
 E agora, José? João, Manuel, André? Maria, Juliana, Marta?
 Você, meu camarada e minha camarada, devia ter largado as convenções sociais, ter pensado em você. Não nos outros, não tanto assim. Você sabia que ninguém ia ser feliz por você, que ninguém ia sentir a dor que você sentiria por não viver. Você sabia que a vida era difícil, mas que aconteciam coisas inacreditáveis. E não precisavam ser só com os outros.
 Você sabia que teria que suar sangue para conseguir, mas que esse sangue valeria a pena.
 E agora?
 Você sabia que esse dia chegaria. No fundo sabia. Esse dia de olhar o mar com rugas nos olhos e ver saudades, apenas saudades. 
 Você não teve coragem. 
 Você não desafiou a si mesmo. 
 Você não tentou!
 E assim a vida passou calmamente por você, com aquela promessa de segurança que parecia suficiente. Felicidade verdadeira era arriscado. Sonhos, para desvairados. Ser quem se é? Você precisava, primeiro, sobreviver. 
 Você sobreviveu muito bem. Nada lhe faltou, do básico que se deve ter. 
 Mas você sabe que não queria só o básico. E que sua alma precisava de mais que o básico, ela pedia todo dia e você fingia não ouvir. Entre calçadas, despertadores, bares e TV, você fingia não ouvir. 
 Sua alma queria te ver feliz. 
 Mas você não largou tudo e tentou. 
 Você é como o mar, agora: bocejos e saudades. 
 O tempo não volta.
 Finalmente você entendeu. 
 O tempo é um trem bala, você percebeu. 
 Você devia ter se escutado. 
 Você devia ter se acreditado.
 Você devia não ter tido tanto medo.
 O medo é muito mais inofensivo que o arrependimento. 
 Que lhe resta?
 Quem sabe inventar um sonho, um sonho derradeiro. 
 Agora que você sabe que não se pode perder tempo fazendo o que os outros fazem e sendo o que os outros são. 
 A gente tem que ser como o mar: infinito, profundo, incompreensível, encantador!
 A gente tem que ser, no mar de si mesmo, pescador.
 Agora você sabe. 
 Mas agora talvez seja tarde...
 Ou quem sabe ainda não! - brada seu coração.
 Seu coração envelheceu mais que seu rosto. 
 Você acredita em sonhos, ainda?
 Você tem medo do medo?
 Você finalmente entendeu o segredo. O velho segredo do mar, que ninguém pode contar.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A casa cinza




 Na casa amarela da esquina, uma criança de nove anos morrera atropelada quando passeava com seu avô – que sobrevivera ao incidente tendo ficado em uma cadeira de rodas. Na casa azul, na metade da quadra, a filha nascera com paralisia infantil. Na casa verde ao lado, atrás da cerquinha branca vivera uma viúva de três maridos. A casa rosa, do outro lado da rua, pegara fogo um dia e, reconstruída, abrigara uma velha que não se sabia de onde vinha; o incêndio ceifara a vida de uma família inteira; a velha, por fim, acabara morta por outro incêndio. E, por fim, na casa cinza, no fim da ruazinha, três irmãos haviam se suicidado e, desde a morte dos pais, a casa ficara ao-deus-dará. Mendigos e gatos dormiam ali, era a mais ameaçadora de todas as casinhas: os pais, diziam, haviam sido encontrados sem vida juntos na sala de estar, sobre um suntuoso e fofo tapete vermelho, com facadas no peito. Nunca se soubera o que sucedera. Diziam que era tudo coisa de um ritual satânico, e a casa era mal-assombrada.A Rua das Tragédias.


Era assim que a chamavam. Seus moradores habitavam ali desde muito tempo. Velhos moradores, visto que poucos tinham coragem de desafiar os prognósticos da Rua das Tragédias, uma bonita alameda em um bairro bucólico da capital. Perto do mar, perto do Cristo Redentor, perto de tantas saudades e solidões. As casas, ali, até eram alugadas e vendidas a preços mais em conta. Tudo por causa da fama da rua: cinco casinhas aterrorizantes. Mas alguns ainda tinham a audácia – ou o desprendimento – de querer morar ali. Atraídos, em grande parte, pelos preços acessíveis e também pelo visual agradável e até mesmo parcimonioso da ruazinha. Como se ela mesma não tivesse culpa das histórias que carregava, em cada pedra da rua, em cada pedaço de concreto, em cada árvore, em cada flor na calçada, em cada porta muda e janela cerrada. 


O ápice da rua era, sem dúvida, a Casa Cinza.


A casa cinza no fim da rua era realmente a mais apavorante de todas as casas. Não apenas por sua história, mas sua arquitetura em si era intrigante, em estilo vitoriano, em um bairro bucólico do Rio de Janeiro. Diziam que fora construída por volta de 1880 – ah, mas diziam tanta coisa. E que fora erigida por um general das Forças Armadas, que ali residia com sua esposa e seus filhos. Morrera envenenado, assim como a esposa, era o que diziam à boca miúda. 
E, depois, muitos anos depois, três filhos haviam se suicidado ali e os pais, poucos dias após, esfaqueados no peito no tapete vermelho da grande sala, em frente à lareira.

A casa cinza nunca havia sido um lar para ninguém após a maldição da família Brunati – a família morta. Dizia-se que tinham habitado ali no início do século XX. Quem tivera a ousadia de lá pisar dizia que dava arrepios só de passar pela soleira da porta. E que a casa tinha um odor estranho, repelente. E barulhos perturbadores. Havia uma saleta lá no fundo onde, diziam, ficava um antigo consultório dentário que havia pertencido ao homem esfaqueado. Os boatos eram de que ele, um imigrante italiano, arrancava os dentes de suas vítimas, sem anestesia, e os torturava, para depois matá-los por misericórdia. Dizia-se que os enterrava embaixo do piso de madeira do consultório, na terra, e havia vários corpos ali, onde nunca ninguém escavara.

Seria o odor da casa resultado daquelas atrocidades? Alguns, céticos, alegavam que devia ser apenas o abandono da casa, que se decompunha lentamente. E o doutor Brunati não passaria de uma lenda. A lenda do dentista assassino. Mais uma lenda da Rua das Tragédias.
O doutor Brunati, diziam, tinha um altar de adoração ao demônio em sua casa. Parece que havia aberto um túnel embaixo da residência, onde fizera um tipo de cripta. Remanescia, supostamente, atrás de uma parede de concreto que ele selara pouco antes de morrer com sua esposa. Uns diziam que era a parede lateral direita da casa, outros, a parede perto da piscina que descia até o primeiro andar. O doutor Brunati, que dizia-se ter vivido ali por décadas, para todos os efeitos havia mandado fazer uma grande piscina que se tornara só um buraco coberto de musgos, moscas e sujeira.

E diziam que até os gatos ficavam arrepiados quando vagavam pela casa. Os cachorros nem entravam, uivavam e recuavam como se vissem fantasmas. Havia discordância quanto ao paradeiro da temida “cadeira de torturas” do doutor Brunati – que arrancava os dentes dos pacientes com alicate, um por um, e depois os matava e sacrificava em seus rituais satânicos. Por fim, enterrava seus restos sob as tábuas de madeira, na terra.
E era comentado que poderia haver mais de dez corpos ali embaixo. Por que a polícia não fazia uma busca? É só imaginação do povo, dizia a polícia, com medo. A casa cinza só era triste e assustadora porque era vazia.

Hoje um garoto muito curioso resolveu se arriscar a entrar na casa, abandonada há mais de duas décadas. Não morava na Rua das Tragédias, não sabia de suas histórias; mas conhecia a história do dentista assassino. Um homenzarrão que dava gargalhadas enquanto decepava lentamente suas vítimas. Que eram, em sua maioria, crianças.O garoto, com seu amigo, foi tapando o nariz para não sentir aquele odor fétido até alcançar uma saleta anexa à casa, nos fundos da moradia. A sala do dentista. Só podia ser. Minha mãe disse que é tudo mentira, pra assustar as crianças.

Apenas uma saleta sem nada dentro.

É, pura mentira.

– Ai!
– O que foi, Carlinhos?? – O grito do amigo fez o coração de Bento pular e o despertou de seus pensamentos sobre sua mãe e as mentiras que as pessoas inventavam.
– Pisei em alguma coisa pontuda...
– Isso que dá andar descalço! Minha mãe nunca deixa eu andar assim. Deve tá cheio de pedrinhas aqui.
Carlinhos, o garoto ferido, assentiu. É, pedrinhas malditas...
– Grudou no meu pé. – Carlinhos levantou a sola para retirar o objeto pontiagudo.
– Viu, eu falei... mamãe tava certa, era tudo lenda... – Bento se sentou na escadinha que dava acesso à saleta, de porta de ferro escancarada recoberta de musgos. Sentiu-se confiante. Um garoto corajoso. Nem todos os garotos fariam aquilo.

Carlinhos se sentou ao lado do amigo. Seus olhos estavam arregalados. Ele parecia tremer. 

Tinha a palma da mão aberta e olhava fixamente para ela.

– Um dente!!! – exclamou Bento, fazendo Carlinhos deixar cair a “pedrinha branca” que ferira seu pé.

Sem pensar, saíram correndo deixando dente, escada, portas, janelas, gatos e moscas para trás.

Nunca mais eles ultrapassarão o portão de ferro da casa cinza. Na verdade, nunca mais a verão.

E no pé de Carlinhos ficou um sulco de dente molar. Um dente molar de criança.


 
Créditos da imagem:"Casa assombrada", João Miranda.