segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Um Ausente

 Hoje faz 109 anos que o mundo teve a honra de ser habitado por um dos maiores gênios da literatura mundial. CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, mandado por um anjo torto ser gauche na vida. Para homenageá-lo, escrevi um poema com várias referências aos escritos dele. Ele, "UM AUSENTE".



Carlos olha

e do Céu escreve.

Fazendo apontamentos sobre o

mundo vasto mundo

que enganou Raimundo.

Foi Carlos ser gauche no Céu.

E no meio do caminho havia uma pedra

havia uma pedra

até suas nuvens de papel.


Bebe um conhaque

Carlos Drummond de Andrade

com seu anjo torto do amor

(“Por que amar, se vamos morrer?”)

há cento e nove anos.

Mirando a lua aqui embaixo

e se põe comovido como o diabo.


“Hoje somos mais vivos do que nunca”,

diz Carlos ao dizer

de sua janela sobre o mar:

“As coisas lindas

muito mais que findas

essas ficarão.”

Mas a vida é pétrea

e ninguém responde...




Leila Krüger.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Última Lágrima


Recolhe meus braços com teus olhos, guarda meus pés em tuas mãos. Leva-me embora para teu dorso, dá-me teu tronco e teremos o alvorecer.

Iça meu oco por tua presença, me faz presença em teu arder. Arde meus passos em teu andar. Entrega-me pernas para voar - sobre o que eu quiser.

Recolhe minha quase alegria em teu leve descanso, volta e me faz nova. Já que eu sou velha, louca, de puros músculos resistindo a tua espera.

Não me faças chorar, meu amor, por favor não me faças. Que quando choro eu às vezes não volto... que se eu não volto não sei mais chorar. E tu és lágrima...



 Leila Krüger.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Fim de Linha





Pisem os trilhos de meu ventre
por favor
trens que viajam sobre gente

trens dementes

sigam até o pescoço
trens valentes
descarrilem em meu dorso

sempre em frente!

Trens de osso
trens de aço
trens
         que
              bra
                   dos





Leila Krüger.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Quase Verão




Há uma chuva negra e macia na vidraça. Quase cinza, um tanto fraca... me acaricia.

Pingos me olham – esperando o chão cegar. Chegar. E o desespero do que chove no mesmo lugar. E a nuvem que se move... sobre as palavras... que eu não te dei.

Negra na janela, esperando o chão.

Sou eu quem chove – antes do verão...

Sou eu quem grita! – ao perder teu rosto de areia, entre minhas mãos...



Leila Krüger

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Retorno de Mim



Aprendi a me deixar podar pela vida.

Deixar que me arranquem os galhos, tal braços, sem dó,
                                       ou com dó, tanto faz...
mas que me arranquem inevitavelmente
                                       e façam de mim o que eu nem sei.

E se eu não souber tudo bem, porque aprendi também a voltar...
mais alta e mais graúda,
do tamanho de um coqueiro na praia deserta.

Também aprendi a me balançar na praia e até a tocar as ondas.
Tudo me deixa forte. Tudo um dia me deixará forte.

E nada me deixará, nunca mais, seca... agora eu posso amar.



Leila Krüger.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Longe




Mas se eu tiver que ser sozinha, serei inteira
serei plácida, como o lago que espera a chuva
como a chuva que busca a manhã.

E se eu tiver que ser escura, serei grandiloquente
se tácita, valente
se árida, compreensiva, ao menos
se ainda assim severa... então liberta.

E se me perder de tudo, e até do fim...
possivelmente eu serei nova
como o verão, no céu de janeiro
como janeiro, no céu de Paris!
Seja lá onde for Paris...          

Hoje, em qualquer lugar, longe daqui. Longe, longe...



Leila Krüger.