terça-feira, 26 de novembro de 2013

Sementes e armaduras



Por que a gente tem que envelhecer?

Se em algum lugar da alma remanesce sempre aquela criança, aquele adolescente, aquela semente recém começando a brotar sem medo de mirar o céu.
         
         E viver de uma forma simples e cândida era bobagem, e acreditar em sonhos absurdos, pueril.

Sorrir, abraçar, brincar todo dia era bobo?

         Acho que somos mais gente antes de sermos adultos. Antes de vestirmos a pesada e antiga e enferrujada armadura das pessoas que sabem viver. Das pessoas que sabem falar, que sabem fingir e que sabem fazer exatamente o que se espera que elas façam.

Creio que eu ainda tenha oito, ou quatorze, ou dezesseis anos no máximo. E essa armadura ficou muito grande, estou procurando preencher meus vazios. Eu um dia não era coberta de titânio. Eu um dia podia erguer os braços mais fácil e pular mais alto. Um dia achava que não havia tantos ecos. Dentro e fora de mim.

         Eu hoje acordei sentindo saudade daquela remota imagem animada que guardo na alma. Que você também guarda, que todos guardam e alguns jamais encontram novamente.

Aquela imagem sou eu.

         E eu não posso me esquecer de quem eu sou.

         Eu sou livre. Livre! Eu preciso de amor, diversão e fé. Deus um dia esteve mais perto. Eu um dia estive mais ciente das coisas belas.

         Mas a gente não tem que envelhecer tanto.

         O que envelhece, mesmo, é a alma. O resto apenas se transforma.

         E eu quero uma alma, de agora em diante, sem rugas e sem cabelos brancos.

         Eu quero nos olhos o brilho dourado de algo que renasce sempre.

         Eu não quero armaduras.

         Eu quero amar... crua.  

         Um dia...

Quando eu for outra vez quem eu sou. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Margeando o Caos



O poeta e contista Majela Colares está lançando novo livro. Trata-se de uma antologia bilíngue português/catalão, selecionada e traduzida pelo poeta, escritor e tradutor catalão, professor de Filosofia Joan Navarro. Em caprichada edição da Confraria do Vento, Rio de Janeiro, a antologia intitulada “Margeando o Caos/Vorejant  el  Caos” que traz na capa uma belíssima imagem do artista plástico, também catalão, Pere Salinas, abrange poemas desde o seu primeiro livro “Confissão de Dívida”, 1993, até o último, Memória Líquida, lançado em 2012. Ao todo são trinta poemas.

Majela Colares um dos mais destacados poetas brasileiros de sua geração e para alguns críticos um dos melhores nomes da atual poesia brasileira, vem  ao longo de sua carreira literária construindo uma obra linear e consistente, reconhecida por especialistas como Ivan Junqueira, André Seffrin, Fábio Lucas, Marco Lucchesi, Alexei Bueno, Jorge Tufic, dentre muitos outros. No prefácio da antologia que vem à publico, assinala o poeta e ensaísta Paulo Ferraz: “A leitura de seus poemas, de início, nos chama atenção por dois aspectos. Primeiro, porque nos possibilita conhecer um poeta que não está restrito às classificações mais didáticas no cenário da poesia brasileira, uma vez que sua dicção não se forma à sombra de nenhuma escola ou movimento específico, o que resulta em uma poética que, com consciência e segurança, incorpora as mais variadas conquistas técnicas e temáticas da modernidade, ou seja, entre agregar e segregar, Colares sempre fica com a primeira opção, é um poeta da pluralidade de recursos que transita com habilidade por variados estilos...”.

É com essas habilidades e a rara consciência poética que lhe é peculiar, que Majela Colares, um poeta jovem – ainda na casa dos 40 anos – vai a cada novo livro sedimentando cada vez mais seu nome no vasto e denso território da poesia brasileira. “Margeando o Caos/Vorejant el Caos”, será primeiramente lançado em Porto Alegre, na famosa Feira do Livro que acontece anualmente, no dia 14 de novembro, às 16h, na Praça de Autógrafos, mas acontecerão lançamentos também em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza, dentre outros, no decorrer de 2014. Boa sorte Majela Colares!
                                                    Leila Krüger, romancista e poeta.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O Voo



Sentada em cima de um tênis All-Star sujo cinza, as calças largas devido à esqualidez, os cabelos untados de suor e possivelmente caspas caindo-lhe nervosamente sobre os ombros encolhidos; e, finalmente, a mão magra de ossos protuberantes sobre a concavidade que provinha de seu ventre: sua criança, dentro da barriga, uma vida querendo nascer.

         Debaixo de uma ponte qualquer, em uma capital qualquer dessas onde todo dia milhares se perdem. Repletas de sombras, fantasmas, fome.

         Abandonada.

         Ainda tinha um celular, sem crédito, poderia ligar a cobrar. Mas para quê? Todos a tinham abandonado. Era assim que as pessoas faziam, elas abandonavam quem mais precisava de cuidados. Havia três meses ela carregava aquilo, aquela criança que chamava de aquilo, consigo. Não sabia se sentia amor, se sentia raiva, se sentia ambos ou nada. Não sabia mais para onde ir, mal sabia de onde vinha.

         O pai daquela vida na barriga estava desaparecido. O celular, quando ligava para ele, falava que estava fora da área de cobertura ou temporariamente desligado. E aquela garota suja e triste ligara centenas de vezes para ele. Pior que ainda o amava. Talvez agora finalmente tivesse desistido. Ela, ali, apenas com seu filho. Não o sentia como filho, era mais um fardo. Era aquilo. Por mais cruel que possa parecer.

         Ela tinha fugido de casa. Mas, antes, seu pai já dissera que teria de ir embora, já que tinha “engravidado daquele calhorda irresponsável drogado”. É verdade, drogado, como ela, embora ela tivesse ficado só no baseado e deixado o pó. Não tinha mais verba para nada, muito menos para uma erva que a acalmasse. Há dias sem fumar, sem beber, sem quase comer. Pedira umas coisas na rua.

         Tivera de vender seu corpo algumas vezes. Fora a única solução. Conseguia alimento em um abrigo, na verdade em mais de um, mas precisava pagar o pequeno quarto onde fora morar. Percebera que morar na rua, dormir ao relento com os cachorros magros, os mendigos e os crackeiros, não era a melhor alternativa. Então tinha de pagar o quarto, e o aluguel venceria logo. Mas tinha gastado o que ganhara com maconha e porcarias, havia um tempo.

         Precisava urgentemente de dinheiro. Fazer o quê? Não, crack não. Aquela pedra maldita. Pedra que seu ex-ficante fumava, o tal “irresponsável drogado”. Ele perguntara a ela se ela queria, mas ela sempre dissera que não, ficara só no fumo de maconha. Graças a Deus, pensava, ou estaria tendo que “dar” o dia inteiro para pagar as dezenas de pedras que fumaria em um só dia. Maconha era mais relax pra ficar sem, diziam, então ela conseguia ficar sem.

         Conseguira ficar uns dias sem. Conhecera um traficante que vendia barato, mas devia ser farinha adulterada. Queria o que, ali perdida? Mas, agora, a barriga estava roncando e a fissura estava pegando. Se a abordassem, até aceitaria uma pedra de crack. Só uminha, talvez não se tornasse dependente. Olhou sua bolsa suja, como seus cabelos, sua roupa, seu tênis, sua moral: quase nada, escova de cabelo, escova de dentes (para que, se nem pasta tinha havia dias), esmalte, celular quieto (comprara outro chip para que sua mãe parasse de ligar, e o pessoal de sua cidade). Ela não era dali, da cidade grande, mas de uma cidadezinha perto da capital.

         Fugira para a capital com uma mochila e uma bolsa havia um mês. A mochila estava em seu quarto repousando. Aberta, como uma boca faminta. Não tinha muita coisa. Ela saíra na madrugada às pressas com o dinheiro que roubara de seu pai, ele a ia matar se a visse, quebrar seus dentes. Mas ela nunca voltaria para lá.

         Nunca mais voltaria para lá. Preferia ir ao inferno.

         Aquele ogro bêbado, sua mãe submissa que, além de apanhar, ainda o defendia. Aquele irmão que para eles era “santo”, mas que, na verdade, ela sabia, roubava carros e fumava maconha o dia inteiro. Ela sabia, fumara com ele.

         Para o inferno com aquela família idiota, com seus pais que nunca tinham nem lhe dado um abraço, com seu pai que dissera que ela era uma vagabunda e devia sair de casa, para o inferno com sua vida de merda que insistia em continuar.

         Não, mas se matar seria muito bobo. Tinha um conhecido que se matara com um tiro na cabeça. Ela nem arma tinha, mas se quisesse poderia dar um fim à sua vida e àquela vida dentro de seu corpo. Ninguém a esperava, ela não esperava mais ninguém.

         Ter ou não ter aquele filho? Aquilo. Tinha umas clínicas de aborto clandestinas. Precisava de um cliente. Vários clientes. Dar uma de Bruna Surfistinha em uma versão piorada. Que vergonha ainda tinha, o que para renegar ainda? Um ser vazio, só repleto de amargura e raiva.

         Subiu os degraus até em cima do viaduto.

         Abriu os braços. Assim ficava mais romântico. Sentiu os cabelos balançarem, como nos filmes. Até ouviu uma música bonita como trilha sonora, uma música imaginária que tocava em seu coração e era muito infeliz. Sorriu, por um momento.

         Apenas por um momento sorriu, respirou fundo e se sentiu a dona do mundo. A dona de um mundo, que nunca fora e nunca seria seu. Ela era bela, tinha dezoito anos e o segundo grau completo. Seria médica, se tudo desse certo, mas não tinha dado. Seria então apenas uma águia.

Atirou-se.

         Recolheram seu corpo, seus pais não ficaram sabendo, enterram-na como indigente.

E assim se acabou mais uma história como tantas que acontecem todos os dias no mundo.

         Assim se acabou a garota Mariana, que um dia prometera a si mesma que seria feliz.

         Mas ela, no final, voou.
        

          

domingo, 15 de setembro de 2013

Paisagem

           

         
         Eu não vi o silêncio das rosas tristonhas
         na janela no vento da espera
         na noite de fim.
         Ou é o recomeço
         no próximo beijo
         na esquina da minha lembrança
         cansada de mim...
        
         Eu não vi os palhaços descalços na rua
         chorando e cantando a beleza da dor.
         E a vida seguindo
na estrada impossível
         do medo da nova paisagem
         com jeito de mar.

         Com jeito de amar...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O velho e a árvore



Quando eu era bem menino meu pai me levava ao pé de uma árvore, no fim da tarde, depois da labuta no campo, e ficávamos ali deitados na grama fofa, entre as folhas caídas. Nessas horas meu pai me contava suas histórias e eu escutava atentamente, com os olhos arregalados e o coração sensível de quem tinha o pai como um herói.

Não sei se tudo o que meu pai me contava era verdade, mas isso não importa. Meu pai, através de suas histórias, me fez entender o que era ser um homem, e como seria quando eu deixasse de ser menino.

- Você vai começar a fazer muitas perguntas e ficará chateado por não ter as respostas. Então saberá que estará deixando de ser menino, porque meninos têm respostas para tudo.

Assim disse meu pai. E de fato, foi exatamente em uma clássica tarde de verão, com quinze anos e três meses de idade, que eu acredito ter deixado de ser menino. Ao pé daquele carvalho enorme, um mês depois de meu pai morrer. Minha grande questão, para a qual não encontrei resposta, era o porquê de ele não estar mais ali comigo. Meu pai não me explicou por que tinha que ir, foi de repente. Um trator o atropelou na lavoura de trigo. Meu pai não me deu a oportunidade de dar a ele um adeus. Mas logo eu descobri que nenhum adeus nunca era suficiente. O adeus era todo dia, quando a gente se lembrava das pessoas que não estavam mais lá.

E todo dia eu ia até o carvalho, no mesmo horário em que papai e eu estávamos ali, e me despedia. Conversava com ele, e de alguma forma sentia que ele estava escutando. Comecei a juntar perguntas sem resposta e entendi que, como papai dissera, eu estava deixando de ser menino. Mas ele me dissera outra coisa, também:

- Um homem não precisa de todas as respostas. Precisa de força e compreensão.

A força eu logo entendi. Meu pai dizia que um homem, e qualquer ser humano, precisava ser forte. Precisava ter esperança, mesmo quando não houvesse razão aparente. Eu tive que ser forte quando meu pai se foi de repente, tive que cuidar da minha triste mãe, que mal sabia escrever e sempre trabalhara duro na fazenda para nos alimentar e dar conforto com o pouco que tínhamos. Minha mãe era, também, minha heroína.

Mas compreensão... Compreensão eu demorei um pouco mais a saber de que se tratava. Pensava que compreender era entender, mas eu nada entendia do mundo, das perdas. Meu pai quase não tinha posses; apenas uma fazendinha muito pequena, não deixou muita coisa para mim e minha mãe. Mas deixou uma bela coleção de livros com a qual, antes de ir embora, estava me ensinando a ler. Eu não frequentei a escola, meu tio Max e meu pai eram quem me ensinavam, meu pai me emprestava seus livros e meu tio Max, sua escrivaninha. Meu tio Max disse que meu pai aprendeu a ler sozinho, nunca frequentou a escola. E que eu era ainda mais esperto que ele. Tio Max, uma vez, disse que eu seria um grande escritor, e daria orgulho a meu pai e a minha mãe, mesmo que eles não estivessem lá para ver. De algum lugar eles estariam olhando, ele disse.

Eu estava deixando de ser menino. Meninos que sonham, que acreditam, que brincam na grama e conversam com cachorros. Desde aquela tarde de verão em que chorei muito no carvalho do meu pai, eu acho que comecei a deixar de ser menino. Força e compreensão. Suportar e aceitar.

Mas um dia, pouco antes de me deixar, papai me disse, na árvore:

- Nem sempre somos fortes nem compreendemos, você não sabe?

Então, como é que seríamos homens, mulheres, adultos?

Eu só fui entender muito mais tarde. Quando fui embora da fazenda. Creio que papai tentava de todas as formas me mostrar aquilo, mas só eu poderia descobrir. As palavras são placas, o caminho é nosso. A gente é que descobre. Eu já vi meu pai chorar, sem esconder, por exemplo, quando meu avô morreu e ele me abraçou. E também vi papai brigar com o vizinho por causa das galinhas e das vacas algumas vezes. Eu vi papai esmorecer algumas vezes, e também mamãe, era sempre um problema ter mantimentos, mas eles eram meus heróis.

Quando meu pai se foi, por anos eu visitei o seu carvalho diariamente, eu conseguia senti-lo ali. Conseguia, ao menos, ouvir ecoarem suas palavras que nunca vão morrer.

Minha mãe se foi faz um tempo, velhinha e rodeada de netos. Na ocasião não consegui visitar a árvore; a mãe foi sepultada em sua cidade, longe da fazenda, e eu tinha compromissos e precisava voltar. Hoje, no entanto, eu estive no carvalho para me despedir mais uma vez do meu pai. Ou seria para me encontrar novamente? O menino que estava lá, e que eu ainda era. Eu chorei, e eu fiz muitas perguntas. Eu não fui forte, eu quis um abraço.

Vinte anos longe do carvalho do meu pai. Eu já sou um velho. Essa vai ser minha árvore pra sempre. Queria que papai a visse agora, como ainda continua do jeito que ele a deixou. É a árvore mais bonita da redondeza. E eu, esse homem grisalho e míope, sou um velho menino.

Acho que seremos sempre meninos e meninas perguntando à árvore. Por mais longe que esteja e por mais antiga que seja.

Meu tio Max disse que eu seria um grande escritor. E disse que meu pai dissera isso a ele. Pois bem, pai, acho que escrevemos juntos cada livro meu. Você, que nunca frequentou uma escola, assim como minha mãe, me ensinou, com ela, a ler. Não apenas livros: as pessoas, os sentimentos, a vida. Eu mesmo. Cada um lê o que sua alma enxerga. Cada um lê com os olhos de quem o leu.

Da minha mãe guardarei muitas lembranças, mas do meu pai serão sempre os fins de tarde no seu, no nosso carvalho sábio. Hoje o escutei, em silêncio, dizer coisas que os meninos precisam ensinar aos homens. Aos homens que são pouco meninos. Aos homens que realmente ficaram velhos, velhos demais para ouvir suas árvores.



     

terça-feira, 30 de julho de 2013

Eles (nós)


Ele olha para ela. Ele nunca havia olhado para ela tão cuidadosamente antes, a não ser na primeira vez que a vira e quando, em um instante, por ela se apaixonara. (Porque o amor é assim, afobado às vezes).

Ela olha para ele, mas não o vê. Vê milhares de coisas em sua mente, coisas que ele nunca viu e que ela não sabe como falar, ou se um dia irá falar. Coisas escondidas nas meninas de seus olhos. Ele olha para ela, vê seu nariz perfeito, sua boca macia de veludo vermelho de batom, suas sobrancelhas bem feitas, seus olhos castanho-acinzentados (da cor do céu de fim de julho), suas marcas de expressão na testa (que ela deve odiar todos os dias), seu ar blasé que encanta e ao mesmo tempo enfada – em igual medida. Ele também tem um ar blasé, um tanto forçado. Um tanto necessário, por trás de seu cigarro – que não fuma mais.

Eles saíram para tomar um café.

Ela olha para ele e vê coisas que acha que ele nunca vai enxergar. Coisas invisíveis, sobre as quais é difícil falar. Coisas que a pungem, às vezes espicaçam, às vezes atordoam, e a fazem sentir a loucura incompreendida que é ser mulher.

Que é ser triste e feliz ao mesmo tempo.

Ele olha para ela e vê sua boa macia de veludo vermelho de batom. E suas sobrancelhas bem feitas, seus olhos castanho-acinzentados, seu ar blasé que ainda o exaspera. E é tão simples. E é tão delicado.

Ela olha para ele e não o vê; vê tantas coisas que não sabe dizer. O amor. A falta. As vicissitudes da incerteza. Se ele pudesse olhar logo atrás – logo atrás! – dos olhos dela – ele a veria... E é tão simples. E é tão delicado. E tão óbvio que impossível.

Ao menos hoje.

Reencontro #PROMO!



Bom dia gente!

Hoje é dia de divulgar #PROMO. É meio chato às vezes, mas gostaria de informar a vocês que meu livro Reencontro, indicado aos Destaques Literários 2012, tá com descontão em vários lugares, com preços por volta de R$ 25,00 ou até menos!

Ponto Frio
http://www.pontofrio.com.br/livros/LivrosdeLiteraturaNacional/LivrosdeRomance/Novos-Talentos-da-Literatura-Brasileira-Reencontro-717850.html

Casas Bahia
http://www.casasbahia.com.br/Novos-Talentos-da-Literatura-Brasileira-Reencontro-717850.html

Extra
http://www.extra.com.br/livros/LivrosdeLiteraturaNacional/LivrosdeRomance/Novos-Talentos-da-Literatura-Brasileira-Reencontro-717850.html


Primeiro capítulo: www.leilakruger.com.br
Página: http://www.facebook.com/reencontroleilakruger




Obs.: Você também encontra, sem promoção, por R$ 39,90, na Saraiva, na Livraria Cultura e no Submarino.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Encontros Secretos





Eram encontros secretos.

Às vezes, quando ela ficava muito triste, subia a longa escada de caracol, que sempre parecia muito escura, mesmo de dia, e ia lá em cima para conversarem. Sabia que estariam sempre lá, remanescendo em suas compreensões inabaláveis e infinitas. Ninguém saberia, e se soubessem talvez dissessem ser arriscado. Porém, de uma coisa ela tinha certeza, e era isso que lhe dava coragem e amor: eles a receberiam de braços abertos.

De páginas abertas, quer dizer. Seus maiores tesouros, seus livros no sótão. Seus melhores amigos.

Eles, eles sempre estariam lá. E eles sempre a esperariam, no silêncio dos momentos inesperados.

Sempre seus livros, velhos livros sem muita beleza por causa do pó e da idade, teriam para ela o encantamento de transportá-la para longe daquele lugar normal e previsível onde habitava sua tristeza densa em nuvens de chuva. Ela os abria, abraçavam-se e sorriam-se e se davam as mãos, unidos por um olhar de alma para alma. Um olhar que só eles eram capazes de ver, sentir e entender. O olhar de coisas que se reconhecem, que se possuem e se necessitam.

E eles se alegravam quando a ouviam traspassando, lânguida, a escada de caracol; contavam seus passos e se alvoroçavam em seus interiores, iluminando-se como quem se enfeita para um encontro especial. De manhã, à tardinha, ou mesmo nas madrugadas misteriosas que queriam dizer coisas por entre as distâncias das estrelas na janela do quarto – a qualquer hora ela podia chegar.

Lá ia ela, com sua nuvem triste chamada vida, e adentrava o recinto de mansinho com suas sandálias quase de bailarina, e abria a janela, e então dirigia seu olhar profundamente cheio de existência incontida para a prateleira de mogno que uma vez por mês limpava com uma flanela úmida. Um dia ela resolvera colocar um incenso para arejar o ambiente do sótão, ou quem sabe torná-lo mais intimista, porém os livros não haviam se agradado muito da ideia: quando ela os lia pareciam secos, lacônicos, alguns até enrijecendo suas páginas e recolhendo seus sorrisos e abraços de tanto descontentamento. Então só alcançou-a uma conclusão, de que os livros não haviam gostado daquele incenso e provavelmente não gostariam de nenhum outro. A princípio ela não entendera, mas agora era claro: eles gostavam de seus próprios cheiros, que continham também suas palavras, seus mundos e seus destinos.

Ela afinal compreendera, como os livros pareciam sempre compreendê-la também.

E ela só os lia com a janela do sótão bem aberta. Mesmo se fosse noite, porque os livros davam a ela uma intrepidez de se sentir também a própria noite, o próprio desafio, embora não por isso triste como com sua nuvem redundando-a de melancolia, e nunca bem-vinda. Ora, se ela não abrisse a janela por onde então sua nuvem cinzenta sairia? Ainda que depois, mais cinzenta e mais plena de desejos, voltasse para pousar na moça como um vestido de mil camadas de memórias.

Os livros sopravam docemente e aquela nuvem-vestido voava para fora da janela, de forma que, nua de dor e medo, a moça ainda pura em seu universo lilás encontrava seus queridos amigos para incríveis viagens que a levavam a conhecer o mundo e também seu jovem coração de ostra. Ela preferia os romances, mas também gostava dos suspenses e dos dramas, e nenhum livro havia que não lhe pudesse dar ao menos um sorriso e um abraço breve.

Alguns ela amava, de outros gostava só um pouco, mas todos eles tinham o sopro. O sopro que levava a nuvem para além da janela e que a levava para além de si própria. Pois só assim ela poderia se sentir feliz – além de quem era.

E ela lia, lia, lia durante horas sem ver o tempo passar, cada um de seus amigos competindo por sua atenção – “você o leu por duas horas, mas a mim só por uma, e você nunca mais me leu, só porque ele é mais novo e grande?” – até que devolvia o último amigo-livro a seu jardim-estante, e, sem nuvem, fechava a janela do sótão vestida apenas de imaginações e aventuras. Certa de que não estava sozinha, mas tinha muitos amigos todos diferentes e cada um particularmente sábio em lhe dizer alguma coisa que ela não sabia. Uns a faziam rir e outros a faziam chorar; no entanto, todos a faziam pensar sobre alguma coisa e essa coisa passava a existir nela. Todos eram bonitos e agradáveis porque todos a liam.

E iam conhecendo sua alma e ela ia conhecendo as almas deles. Ela lia os livros e os livros a liam, porque eram ambos feitos de palavras. Ambos feitos de sonhos. Ambos em suas estantes, esperando serem desvendados e, se possível, amados.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Encontrando Clarice



 Clarice era garbosa até mesmo escrevendo - como se vê nessa foto que preserva para a eternidade o encanto de uma menina incompreendida. Clarice domava a folha de papel como se doma - e se acaricia - um cavalo xucro, e cavalgava com ele por caminhos insondáveis que ultrapassavam as estrelas. Clarice era requintada, Clarice sabia as palavras certas e, como raras pessoas, sabia ouvir o silêncio. Sabia mergulhar no silêncio, afogar-se em sentimentos, ensinar a dizer. 
 Clarice devia gostar de chá, mas talvez preferisse café por ser mais forte e manter a alma acordada. Clarice devia escrever com uma caneta de estimação, de prata ou de ouro, ou uma simples de sua adolescência, da época de "Perto do Coração Selvagem", que prodigiosamente escreveu com, se não me engano, 23 anos. Esse coração selvagem, que nunca deixou de ser selvagem. Esse rosto de traços firmes que desafiam, esse rosto de olhos profundos e intocáveis - talvez frágeis, apenas frágeis se bem olhar-se... 
 Clarice vestia-se bem, portava-se bem, falava com a calma dos sábios e escrevia com o impulso incontido dos gênios. Ou apenas dos que amam e sentem demais.
 Como seria se eu convidasse Clarice para um chá? Acho que ela preferiria café. Ela gostava de beber? Apreciaria um champanhe, um licor, um vinho branco? Clarice tem cara de quem prefere vinho branco, sorvido leve com peixes. Clarice viria imensa, com uma empáfia inerente a tudo o que era, e é, e sempre vai ser. Clarice viria de cores escuras, de colar grande de bolas, de brincos pequenos, de sobrancelhas bem-feitas, de batom rubi, de pele marcada pelo tempo - mas nem tanto, a ponto de omitir sua beleza exótica -, de poucas palavras e cada uma contendo milhares de cápsulas de emoção selvagem. Eu, eu estaria estarrecida em frente à Clarice. Eu estaria "perto do coração selvagem", e selvagem também acho que é meu peito. Eu pensaria em como não decepcioná-la em uma conversa sobre a vida ou sobre literatura, esquecendo-me de que nunca dá certo fingir. Ainda mais com Clarice. O que eu perguntaria a Clarice? 
 Acho que, diante daqueles negros e grandes olhos muito mais oblíquos que os de Capitu, eu perguntaria:
 - Clarice, você foi feliz?
 Não sei por que indagaria isso. Acho que porque, no fundo, todos nós queremos desesperada ou desanimadamente ser felizes. E Clarice, dona das melhores palavras e silêncios, devia também guardar nela esse pequeno segredo sobre a felicidade. Talvez não tenha sido feliz, sei que amou um homossexual e um homem casado, e dizem ter tido um marido distante, embora rico. Sei que, como ela mesma disse, cumpriu seu destino final de ser mulher que é ficar sozinha. Sei que conheceu a solidão, sei que no-la revelou. Sei que Clarice me conhece, de algum jeito, pois me fala diretamente. E conhece a muitos. Conhece o mundo. Mas, Clarice, você, em meio a toda a dor, foi feliz? Em algum momento foi feliz? Ou você apenas teve esperança de ser?
 Eu gostaria de convidar Clarice para tomar um chá, ou um café, ou um licor. E eu sei que não poderia enganá-la, e ela não me enganaria também. Talvez nos abraçássemos, e eu a desarmasse. Talvez eu me certificasse de que ela é um pedestal para sempre. 
 Clarice deixou um baú de palavras para todos os momentos. É necessário ter a chave. A chave, aquela dourada que abre a porta da alma... 
 Clarice, sinto saudade da conversa que nunca tivemos. Sinto saudade de nunca tê-la ouvido dizer "eu sou mais forte do que eu". Sinto saudade de palavras que ecoam no passado, e não no presente. 
 Olhemos o entardecer. As palavras, afinal, voltam sempre ao entardecer para existirem outra vez.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Muros


Engraçado como o mundo não parou.

Continua aqui, com seus prédios de concreto impassíveis e progressistas, quase tocando as plácidas nuvens, e com suas calçadas lotadas de gente que sempre está indo a algum lugar distante; o mundo continua com suas gaivotas, seus motores, suas compras e vendas, suas conversas de boteco, suas ameaças de chuva à tardinha, suas faltas de guarda-chuvas, seus vestidos coloridos e suas gravatas sérias. Amanhã ou depois teremos nossos compromissos, e a limpeza do quarto não pode esperar. E os relógios não param de gritar.

Engraçado como nada parou.

Enquanto eu andava com o coração se despedaçando por entre rostos de pedra como os rostos da Ilha de Páscoa, que jamais poderiam me salvar. A salvação só poderia estar em minha velha solidão, essa senhora que me acompanha silenciosa e intangível. 

Eu chorava lágrimas invisíveis, daquele tipo que é como ácido. Eu ia sem nem saber para onde, procurando-te nas vitrines que ostentam sonhos e nos balões azuis que eu não via no céu. Eu andava escoltada por memórias vestidas de preto, e todas com teu sorriso triste de despedida que me despedia de mim também.

Eu andava sem coração, sem caminhos, sem certezas. Porque – pensei – é assim que a gente às vezes tem de prosseguir na vida. Deus, o mundo não fez o favor de parar! E eu não recebi nenhum abraço na alma, nenhuma palavra para nela descansar.

Eu estou aqui te procurando, nas vitrines e nos balões, nos futuros que se desenham inocentemente em cenários clichês. Como se houvesse futuro. Como se fosse haver alegria, arrependimento e, como disse Anaïs Nin, “nenhum muro mais”. Mas há muros, e o mundo inteiro na verdade hoje é um muro.

Não consigo atravessá-lo. Não consigo atravessar-me, e atravessar-te, e atravessar tudo o que não se vê.

Lembra que eu te procuro. Lembra que eu não te acho. E não te achando eu não me sou...

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Colo



Quando eu estava no teu colo éramos concha impenetrável. E o mundo lá fora, acontecendo rápido na hora do rush, nos prédios que observam atentamente as formigas de duas pernas lá embaixo, nas indecisões e dúvidas que atropelam as mentes sonhadoras e às vezes ainda castas; o mundo que segue, traspassando as tristezas que não cabem nos corações, triturando futuros e mastigando sentimentos com fome cruel.
         Quando eu estava no teu colo éramos praia deserta onde se descansa, onde se compreende apenas olhando o mar, pisando a areia, longe da civilização que desaprendeu a viver. E a amar. E até mesmo a ser.
         Quando eu estava no teu colo tudo bastava. Tudo explicava. Tudo era tão doce como nuvens de algodão nos teus olhos, e o sol nascendo no teu sorriso brilhante de criança grande. Só as crianças sabem sorrir, sem pensar no mundo.
         Eu deito e descubro teu colo no meu pensamento. É para lá que eu vou, pra fugir daqui. Do rush, dos prédios, dos homens-formiga e daqueles que desaprenderam as coisas essenciais.
         O amor habita em mim. O amor sou eu, quando sei que tudo é apenas amor.
         

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Novo blog e novo site!

 O blog está de cara nova!
 Vou postar aqui meus textos quando puder.
 Convido vocês a conhecerem meu novo site:
 www.leilakruger.com.br
 Lá tem sobre meus livros Reencontro e A Queda da Bastilha, link para o primeiro capítulo de Reencontro, lojinha pra adquirir meus livros com descontos e você também pode comprar aí do lado clicando no botão do PagSeguro. No site tem uma promoção de Reencontro + A Queda da Bastilha.
 Bem-vindos!
 Beijos!