terça-feira, 30 de julho de 2013

Eles (nós)


Ele olha para ela. Ele nunca havia olhado para ela tão cuidadosamente antes, a não ser na primeira vez que a vira e quando, em um instante, por ela se apaixonara. (Porque o amor é assim, afobado às vezes).

Ela olha para ele, mas não o vê. Vê milhares de coisas em sua mente, coisas que ele nunca viu e que ela não sabe como falar, ou se um dia irá falar. Coisas escondidas nas meninas de seus olhos. Ele olha para ela, vê seu nariz perfeito, sua boca macia de veludo vermelho de batom, suas sobrancelhas bem feitas, seus olhos castanho-acinzentados (da cor do céu de fim de julho), suas marcas de expressão na testa (que ela deve odiar todos os dias), seu ar blasé que encanta e ao mesmo tempo enfada – em igual medida. Ele também tem um ar blasé, um tanto forçado. Um tanto necessário, por trás de seu cigarro – que não fuma mais.

Eles saíram para tomar um café.

Ela olha para ele e vê coisas que acha que ele nunca vai enxergar. Coisas invisíveis, sobre as quais é difícil falar. Coisas que a pungem, às vezes espicaçam, às vezes atordoam, e a fazem sentir a loucura incompreendida que é ser mulher.

Que é ser triste e feliz ao mesmo tempo.

Ele olha para ela e vê sua boa macia de veludo vermelho de batom. E suas sobrancelhas bem feitas, seus olhos castanho-acinzentados, seu ar blasé que ainda o exaspera. E é tão simples. E é tão delicado.

Ela olha para ele e não o vê; vê tantas coisas que não sabe dizer. O amor. A falta. As vicissitudes da incerteza. Se ele pudesse olhar logo atrás – logo atrás! – dos olhos dela – ele a veria... E é tão simples. E é tão delicado. E tão óbvio que impossível.

Ao menos hoje.

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