segunda-feira, 1 de julho de 2013

Encontros Secretos





Eram encontros secretos.

Às vezes, quando ela ficava muito triste, subia a longa escada de caracol, que sempre parecia muito escura, mesmo de dia, e ia lá em cima para conversarem. Sabia que estariam sempre lá, remanescendo em suas compreensões inabaláveis e infinitas. Ninguém saberia, e se soubessem talvez dissessem ser arriscado. Porém, de uma coisa ela tinha certeza, e era isso que lhe dava coragem e amor: eles a receberiam de braços abertos.

De páginas abertas, quer dizer. Seus maiores tesouros, seus livros no sótão. Seus melhores amigos.

Eles, eles sempre estariam lá. E eles sempre a esperariam, no silêncio dos momentos inesperados.

Sempre seus livros, velhos livros sem muita beleza por causa do pó e da idade, teriam para ela o encantamento de transportá-la para longe daquele lugar normal e previsível onde habitava sua tristeza densa em nuvens de chuva. Ela os abria, abraçavam-se e sorriam-se e se davam as mãos, unidos por um olhar de alma para alma. Um olhar que só eles eram capazes de ver, sentir e entender. O olhar de coisas que se reconhecem, que se possuem e se necessitam.

E eles se alegravam quando a ouviam traspassando, lânguida, a escada de caracol; contavam seus passos e se alvoroçavam em seus interiores, iluminando-se como quem se enfeita para um encontro especial. De manhã, à tardinha, ou mesmo nas madrugadas misteriosas que queriam dizer coisas por entre as distâncias das estrelas na janela do quarto – a qualquer hora ela podia chegar.

Lá ia ela, com sua nuvem triste chamada vida, e adentrava o recinto de mansinho com suas sandálias quase de bailarina, e abria a janela, e então dirigia seu olhar profundamente cheio de existência incontida para a prateleira de mogno que uma vez por mês limpava com uma flanela úmida. Um dia ela resolvera colocar um incenso para arejar o ambiente do sótão, ou quem sabe torná-lo mais intimista, porém os livros não haviam se agradado muito da ideia: quando ela os lia pareciam secos, lacônicos, alguns até enrijecendo suas páginas e recolhendo seus sorrisos e abraços de tanto descontentamento. Então só alcançou-a uma conclusão, de que os livros não haviam gostado daquele incenso e provavelmente não gostariam de nenhum outro. A princípio ela não entendera, mas agora era claro: eles gostavam de seus próprios cheiros, que continham também suas palavras, seus mundos e seus destinos.

Ela afinal compreendera, como os livros pareciam sempre compreendê-la também.

E ela só os lia com a janela do sótão bem aberta. Mesmo se fosse noite, porque os livros davam a ela uma intrepidez de se sentir também a própria noite, o próprio desafio, embora não por isso triste como com sua nuvem redundando-a de melancolia, e nunca bem-vinda. Ora, se ela não abrisse a janela por onde então sua nuvem cinzenta sairia? Ainda que depois, mais cinzenta e mais plena de desejos, voltasse para pousar na moça como um vestido de mil camadas de memórias.

Os livros sopravam docemente e aquela nuvem-vestido voava para fora da janela, de forma que, nua de dor e medo, a moça ainda pura em seu universo lilás encontrava seus queridos amigos para incríveis viagens que a levavam a conhecer o mundo e também seu jovem coração de ostra. Ela preferia os romances, mas também gostava dos suspenses e dos dramas, e nenhum livro havia que não lhe pudesse dar ao menos um sorriso e um abraço breve.

Alguns ela amava, de outros gostava só um pouco, mas todos eles tinham o sopro. O sopro que levava a nuvem para além da janela e que a levava para além de si própria. Pois só assim ela poderia se sentir feliz – além de quem era.

E ela lia, lia, lia durante horas sem ver o tempo passar, cada um de seus amigos competindo por sua atenção – “você o leu por duas horas, mas a mim só por uma, e você nunca mais me leu, só porque ele é mais novo e grande?” – até que devolvia o último amigo-livro a seu jardim-estante, e, sem nuvem, fechava a janela do sótão vestida apenas de imaginações e aventuras. Certa de que não estava sozinha, mas tinha muitos amigos todos diferentes e cada um particularmente sábio em lhe dizer alguma coisa que ela não sabia. Uns a faziam rir e outros a faziam chorar; no entanto, todos a faziam pensar sobre alguma coisa e essa coisa passava a existir nela. Todos eram bonitos e agradáveis porque todos a liam.

E iam conhecendo sua alma e ela ia conhecendo as almas deles. Ela lia os livros e os livros a liam, porque eram ambos feitos de palavras. Ambos feitos de sonhos. Ambos em suas estantes, esperando serem desvendados e, se possível, amados.


2 comentários:

  1. Olá Leila! Bom dia minha querida! As tantas circunstancias tem afastando-me das redes (sociais)por isso só agora parei para agradecer-te pelo presente enviado a mim, estive em viagem e ao voltar os recebi de braços aberto; tanto "Aqueda da bastilha" quando o "Reencontro". E posso dizer que também tenho esses encontros apaixonados com essas casquinhas de letras pois eu os abro e eles me desvendam. Grande e belo texto, grande e belo talento, meu abraço e gratidão. Sucesso!

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    1. Oi Elisvaldo! Obrigada pelos elogios, espero que goste de Reencontro e A Queda da Bastilha! Nada como livros para criarem mundos nos quais possamos ou devamos viver! Beijos.

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