quinta-feira, 13 de junho de 2013

Encontrando Clarice



 Clarice era garbosa até mesmo escrevendo - como se vê nessa foto que preserva para a eternidade o encanto de uma menina incompreendida. Clarice domava a folha de papel como se doma - e se acaricia - um cavalo xucro, e cavalgava com ele por caminhos insondáveis que ultrapassavam as estrelas. Clarice era requintada, Clarice sabia as palavras certas e, como raras pessoas, sabia ouvir o silêncio. Sabia mergulhar no silêncio, afogar-se em sentimentos, ensinar a dizer. 
 Clarice devia gostar de chá, mas talvez preferisse café por ser mais forte e manter a alma acordada. Clarice devia escrever com uma caneta de estimação, de prata ou de ouro, ou uma simples de sua adolescência, da época de "Perto do Coração Selvagem", que prodigiosamente escreveu com, se não me engano, 23 anos. Esse coração selvagem, que nunca deixou de ser selvagem. Esse rosto de traços firmes que desafiam, esse rosto de olhos profundos e intocáveis - talvez frágeis, apenas frágeis se bem olhar-se... 
 Clarice vestia-se bem, portava-se bem, falava com a calma dos sábios e escrevia com o impulso incontido dos gênios. Ou apenas dos que amam e sentem demais.
 Como seria se eu convidasse Clarice para um chá? Acho que ela preferiria café. Ela gostava de beber? Apreciaria um champanhe, um licor, um vinho branco? Clarice tem cara de quem prefere vinho branco, sorvido leve com peixes. Clarice viria imensa, com uma empáfia inerente a tudo o que era, e é, e sempre vai ser. Clarice viria de cores escuras, de colar grande de bolas, de brincos pequenos, de sobrancelhas bem-feitas, de batom rubi, de pele marcada pelo tempo - mas nem tanto, a ponto de omitir sua beleza exótica -, de poucas palavras e cada uma contendo milhares de cápsulas de emoção selvagem. Eu, eu estaria estarrecida em frente à Clarice. Eu estaria "perto do coração selvagem", e selvagem também acho que é meu peito. Eu pensaria em como não decepcioná-la em uma conversa sobre a vida ou sobre literatura, esquecendo-me de que nunca dá certo fingir. Ainda mais com Clarice. O que eu perguntaria a Clarice? 
 Acho que, diante daqueles negros e grandes olhos muito mais oblíquos que os de Capitu, eu perguntaria:
 - Clarice, você foi feliz?
 Não sei por que indagaria isso. Acho que porque, no fundo, todos nós queremos desesperada ou desanimadamente ser felizes. E Clarice, dona das melhores palavras e silêncios, devia também guardar nela esse pequeno segredo sobre a felicidade. Talvez não tenha sido feliz, sei que amou um homossexual e um homem casado, e dizem ter tido um marido distante, embora rico. Sei que, como ela mesma disse, cumpriu seu destino final de ser mulher que é ficar sozinha. Sei que conheceu a solidão, sei que no-la revelou. Sei que Clarice me conhece, de algum jeito, pois me fala diretamente. E conhece a muitos. Conhece o mundo. Mas, Clarice, você, em meio a toda a dor, foi feliz? Em algum momento foi feliz? Ou você apenas teve esperança de ser?
 Eu gostaria de convidar Clarice para tomar um chá, ou um café, ou um licor. E eu sei que não poderia enganá-la, e ela não me enganaria também. Talvez nos abraçássemos, e eu a desarmasse. Talvez eu me certificasse de que ela é um pedestal para sempre. 
 Clarice deixou um baú de palavras para todos os momentos. É necessário ter a chave. A chave, aquela dourada que abre a porta da alma... 
 Clarice, sinto saudade da conversa que nunca tivemos. Sinto saudade de nunca tê-la ouvido dizer "eu sou mais forte do que eu". Sinto saudade de palavras que ecoam no passado, e não no presente. 
 Olhemos o entardecer. As palavras, afinal, voltam sempre ao entardecer para existirem outra vez.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Muros


Engraçado como o mundo não parou.

Continua aqui, com seus prédios de concreto impassíveis e progressistas, quase tocando as plácidas nuvens, e com suas calçadas lotadas de gente que sempre está indo a algum lugar distante; o mundo continua com suas gaivotas, seus motores, suas compras e vendas, suas conversas de boteco, suas ameaças de chuva à tardinha, suas faltas de guarda-chuvas, seus vestidos coloridos e suas gravatas sérias. Amanhã ou depois teremos nossos compromissos, e a limpeza do quarto não pode esperar. E os relógios não param de gritar.

Engraçado como nada parou.

Enquanto eu andava com o coração se despedaçando por entre rostos de pedra como os rostos da Ilha de Páscoa, que jamais poderiam me salvar. A salvação só poderia estar em minha velha solidão, essa senhora que me acompanha silenciosa e intangível. 

Eu chorava lágrimas invisíveis, daquele tipo que é como ácido. Eu ia sem nem saber para onde, procurando-te nas vitrines que ostentam sonhos e nos balões azuis que eu não via no céu. Eu andava escoltada por memórias vestidas de preto, e todas com teu sorriso triste de despedida que me despedia de mim também.

Eu andava sem coração, sem caminhos, sem certezas. Porque – pensei – é assim que a gente às vezes tem de prosseguir na vida. Deus, o mundo não fez o favor de parar! E eu não recebi nenhum abraço na alma, nenhuma palavra para nela descansar.

Eu estou aqui te procurando, nas vitrines e nos balões, nos futuros que se desenham inocentemente em cenários clichês. Como se houvesse futuro. Como se fosse haver alegria, arrependimento e, como disse Anaïs Nin, “nenhum muro mais”. Mas há muros, e o mundo inteiro na verdade hoje é um muro.

Não consigo atravessá-lo. Não consigo atravessar-me, e atravessar-te, e atravessar tudo o que não se vê.

Lembra que eu te procuro. Lembra que eu não te acho. E não te achando eu não me sou...