terça-feira, 30 de julho de 2013

Eles (nós)


Ele olha para ela. Ele nunca havia olhado para ela tão cuidadosamente antes, a não ser na primeira vez que a vira e quando, em um instante, por ela se apaixonara. (Porque o amor é assim, afobado às vezes).

Ela olha para ele, mas não o vê. Vê milhares de coisas em sua mente, coisas que ele nunca viu e que ela não sabe como falar, ou se um dia irá falar. Coisas escondidas nas meninas de seus olhos. Ele olha para ela, vê seu nariz perfeito, sua boca macia de veludo vermelho de batom, suas sobrancelhas bem feitas, seus olhos castanho-acinzentados (da cor do céu de fim de julho), suas marcas de expressão na testa (que ela deve odiar todos os dias), seu ar blasé que encanta e ao mesmo tempo enfada – em igual medida. Ele também tem um ar blasé, um tanto forçado. Um tanto necessário, por trás de seu cigarro – que não fuma mais.

Eles saíram para tomar um café.

Ela olha para ele e vê coisas que acha que ele nunca vai enxergar. Coisas invisíveis, sobre as quais é difícil falar. Coisas que a pungem, às vezes espicaçam, às vezes atordoam, e a fazem sentir a loucura incompreendida que é ser mulher.

Que é ser triste e feliz ao mesmo tempo.

Ele olha para ela e vê sua boa macia de veludo vermelho de batom. E suas sobrancelhas bem feitas, seus olhos castanho-acinzentados, seu ar blasé que ainda o exaspera. E é tão simples. E é tão delicado.

Ela olha para ele e não o vê; vê tantas coisas que não sabe dizer. O amor. A falta. As vicissitudes da incerteza. Se ele pudesse olhar logo atrás – logo atrás! – dos olhos dela – ele a veria... E é tão simples. E é tão delicado. E tão óbvio que impossível.

Ao menos hoje.

Reencontro #PROMO!



Bom dia gente!

Hoje é dia de divulgar #PROMO. É meio chato às vezes, mas gostaria de informar a vocês que meu livro Reencontro, indicado aos Destaques Literários 2012, tá com descontão em vários lugares, com preços por volta de R$ 25,00 ou até menos!

Ponto Frio
http://www.pontofrio.com.br/livros/LivrosdeLiteraturaNacional/LivrosdeRomance/Novos-Talentos-da-Literatura-Brasileira-Reencontro-717850.html

Casas Bahia
http://www.casasbahia.com.br/Novos-Talentos-da-Literatura-Brasileira-Reencontro-717850.html

Extra
http://www.extra.com.br/livros/LivrosdeLiteraturaNacional/LivrosdeRomance/Novos-Talentos-da-Literatura-Brasileira-Reencontro-717850.html


Primeiro capítulo: www.leilakruger.com.br
Página: http://www.facebook.com/reencontroleilakruger




Obs.: Você também encontra, sem promoção, por R$ 39,90, na Saraiva, na Livraria Cultura e no Submarino.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Encontros Secretos





Eram encontros secretos.

Às vezes, quando ela ficava muito triste, subia a longa escada de caracol, que sempre parecia muito escura, mesmo de dia, e ia lá em cima para conversarem. Sabia que estariam sempre lá, remanescendo em suas compreensões inabaláveis e infinitas. Ninguém saberia, e se soubessem talvez dissessem ser arriscado. Porém, de uma coisa ela tinha certeza, e era isso que lhe dava coragem e amor: eles a receberiam de braços abertos.

De páginas abertas, quer dizer. Seus maiores tesouros, seus livros no sótão. Seus melhores amigos.

Eles, eles sempre estariam lá. E eles sempre a esperariam, no silêncio dos momentos inesperados.

Sempre seus livros, velhos livros sem muita beleza por causa do pó e da idade, teriam para ela o encantamento de transportá-la para longe daquele lugar normal e previsível onde habitava sua tristeza densa em nuvens de chuva. Ela os abria, abraçavam-se e sorriam-se e se davam as mãos, unidos por um olhar de alma para alma. Um olhar que só eles eram capazes de ver, sentir e entender. O olhar de coisas que se reconhecem, que se possuem e se necessitam.

E eles se alegravam quando a ouviam traspassando, lânguida, a escada de caracol; contavam seus passos e se alvoroçavam em seus interiores, iluminando-se como quem se enfeita para um encontro especial. De manhã, à tardinha, ou mesmo nas madrugadas misteriosas que queriam dizer coisas por entre as distâncias das estrelas na janela do quarto – a qualquer hora ela podia chegar.

Lá ia ela, com sua nuvem triste chamada vida, e adentrava o recinto de mansinho com suas sandálias quase de bailarina, e abria a janela, e então dirigia seu olhar profundamente cheio de existência incontida para a prateleira de mogno que uma vez por mês limpava com uma flanela úmida. Um dia ela resolvera colocar um incenso para arejar o ambiente do sótão, ou quem sabe torná-lo mais intimista, porém os livros não haviam se agradado muito da ideia: quando ela os lia pareciam secos, lacônicos, alguns até enrijecendo suas páginas e recolhendo seus sorrisos e abraços de tanto descontentamento. Então só alcançou-a uma conclusão, de que os livros não haviam gostado daquele incenso e provavelmente não gostariam de nenhum outro. A princípio ela não entendera, mas agora era claro: eles gostavam de seus próprios cheiros, que continham também suas palavras, seus mundos e seus destinos.

Ela afinal compreendera, como os livros pareciam sempre compreendê-la também.

E ela só os lia com a janela do sótão bem aberta. Mesmo se fosse noite, porque os livros davam a ela uma intrepidez de se sentir também a própria noite, o próprio desafio, embora não por isso triste como com sua nuvem redundando-a de melancolia, e nunca bem-vinda. Ora, se ela não abrisse a janela por onde então sua nuvem cinzenta sairia? Ainda que depois, mais cinzenta e mais plena de desejos, voltasse para pousar na moça como um vestido de mil camadas de memórias.

Os livros sopravam docemente e aquela nuvem-vestido voava para fora da janela, de forma que, nua de dor e medo, a moça ainda pura em seu universo lilás encontrava seus queridos amigos para incríveis viagens que a levavam a conhecer o mundo e também seu jovem coração de ostra. Ela preferia os romances, mas também gostava dos suspenses e dos dramas, e nenhum livro havia que não lhe pudesse dar ao menos um sorriso e um abraço breve.

Alguns ela amava, de outros gostava só um pouco, mas todos eles tinham o sopro. O sopro que levava a nuvem para além da janela e que a levava para além de si própria. Pois só assim ela poderia se sentir feliz – além de quem era.

E ela lia, lia, lia durante horas sem ver o tempo passar, cada um de seus amigos competindo por sua atenção – “você o leu por duas horas, mas a mim só por uma, e você nunca mais me leu, só porque ele é mais novo e grande?” – até que devolvia o último amigo-livro a seu jardim-estante, e, sem nuvem, fechava a janela do sótão vestida apenas de imaginações e aventuras. Certa de que não estava sozinha, mas tinha muitos amigos todos diferentes e cada um particularmente sábio em lhe dizer alguma coisa que ela não sabia. Uns a faziam rir e outros a faziam chorar; no entanto, todos a faziam pensar sobre alguma coisa e essa coisa passava a existir nela. Todos eram bonitos e agradáveis porque todos a liam.

E iam conhecendo sua alma e ela ia conhecendo as almas deles. Ela lia os livros e os livros a liam, porque eram ambos feitos de palavras. Ambos feitos de sonhos. Ambos em suas estantes, esperando serem desvendados e, se possível, amados.