quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O Voo



Sentada em cima de um tênis All-Star sujo cinza, as calças largas devido à esqualidez, os cabelos untados de suor e possivelmente caspas caindo-lhe nervosamente sobre os ombros encolhidos; e, finalmente, a mão magra de ossos protuberantes sobre a concavidade que provinha de seu ventre: sua criança, dentro da barriga, uma vida querendo nascer.

         Debaixo de uma ponte qualquer, em uma capital qualquer dessas onde todo dia milhares se perdem. Repletas de sombras, fantasmas, fome.

         Abandonada.

         Ainda tinha um celular, sem crédito, poderia ligar a cobrar. Mas para quê? Todos a tinham abandonado. Era assim que as pessoas faziam, elas abandonavam quem mais precisava de cuidados. Havia três meses ela carregava aquilo, aquela criança que chamava de aquilo, consigo. Não sabia se sentia amor, se sentia raiva, se sentia ambos ou nada. Não sabia mais para onde ir, mal sabia de onde vinha.

         O pai daquela vida na barriga estava desaparecido. O celular, quando ligava para ele, falava que estava fora da área de cobertura ou temporariamente desligado. E aquela garota suja e triste ligara centenas de vezes para ele. Pior que ainda o amava. Talvez agora finalmente tivesse desistido. Ela, ali, apenas com seu filho. Não o sentia como filho, era mais um fardo. Era aquilo. Por mais cruel que possa parecer.

         Ela tinha fugido de casa. Mas, antes, seu pai já dissera que teria de ir embora, já que tinha “engravidado daquele calhorda irresponsável drogado”. É verdade, drogado, como ela, embora ela tivesse ficado só no baseado e deixado o pó. Não tinha mais verba para nada, muito menos para uma erva que a acalmasse. Há dias sem fumar, sem beber, sem quase comer. Pedira umas coisas na rua.

         Tivera de vender seu corpo algumas vezes. Fora a única solução. Conseguia alimento em um abrigo, na verdade em mais de um, mas precisava pagar o pequeno quarto onde fora morar. Percebera que morar na rua, dormir ao relento com os cachorros magros, os mendigos e os crackeiros, não era a melhor alternativa. Então tinha de pagar o quarto, e o aluguel venceria logo. Mas tinha gastado o que ganhara com maconha e porcarias, havia um tempo.

         Precisava urgentemente de dinheiro. Fazer o quê? Não, crack não. Aquela pedra maldita. Pedra que seu ex-ficante fumava, o tal “irresponsável drogado”. Ele perguntara a ela se ela queria, mas ela sempre dissera que não, ficara só no fumo de maconha. Graças a Deus, pensava, ou estaria tendo que “dar” o dia inteiro para pagar as dezenas de pedras que fumaria em um só dia. Maconha era mais relax pra ficar sem, diziam, então ela conseguia ficar sem.

         Conseguira ficar uns dias sem. Conhecera um traficante que vendia barato, mas devia ser farinha adulterada. Queria o que, ali perdida? Mas, agora, a barriga estava roncando e a fissura estava pegando. Se a abordassem, até aceitaria uma pedra de crack. Só uminha, talvez não se tornasse dependente. Olhou sua bolsa suja, como seus cabelos, sua roupa, seu tênis, sua moral: quase nada, escova de cabelo, escova de dentes (para que, se nem pasta tinha havia dias), esmalte, celular quieto (comprara outro chip para que sua mãe parasse de ligar, e o pessoal de sua cidade). Ela não era dali, da cidade grande, mas de uma cidadezinha perto da capital.

         Fugira para a capital com uma mochila e uma bolsa havia um mês. A mochila estava em seu quarto repousando. Aberta, como uma boca faminta. Não tinha muita coisa. Ela saíra na madrugada às pressas com o dinheiro que roubara de seu pai, ele a ia matar se a visse, quebrar seus dentes. Mas ela nunca voltaria para lá.

         Nunca mais voltaria para lá. Preferia ir ao inferno.

         Aquele ogro bêbado, sua mãe submissa que, além de apanhar, ainda o defendia. Aquele irmão que para eles era “santo”, mas que, na verdade, ela sabia, roubava carros e fumava maconha o dia inteiro. Ela sabia, fumara com ele.

         Para o inferno com aquela família idiota, com seus pais que nunca tinham nem lhe dado um abraço, com seu pai que dissera que ela era uma vagabunda e devia sair de casa, para o inferno com sua vida de merda que insistia em continuar.

         Não, mas se matar seria muito bobo. Tinha um conhecido que se matara com um tiro na cabeça. Ela nem arma tinha, mas se quisesse poderia dar um fim à sua vida e àquela vida dentro de seu corpo. Ninguém a esperava, ela não esperava mais ninguém.

         Ter ou não ter aquele filho? Aquilo. Tinha umas clínicas de aborto clandestinas. Precisava de um cliente. Vários clientes. Dar uma de Bruna Surfistinha em uma versão piorada. Que vergonha ainda tinha, o que para renegar ainda? Um ser vazio, só repleto de amargura e raiva.

         Subiu os degraus até em cima do viaduto.

         Abriu os braços. Assim ficava mais romântico. Sentiu os cabelos balançarem, como nos filmes. Até ouviu uma música bonita como trilha sonora, uma música imaginária que tocava em seu coração e era muito infeliz. Sorriu, por um momento.

         Apenas por um momento sorriu, respirou fundo e se sentiu a dona do mundo. A dona de um mundo, que nunca fora e nunca seria seu. Ela era bela, tinha dezoito anos e o segundo grau completo. Seria médica, se tudo desse certo, mas não tinha dado. Seria então apenas uma águia.

Atirou-se.

         Recolheram seu corpo, seus pais não ficaram sabendo, enterram-na como indigente.

E assim se acabou mais uma história como tantas que acontecem todos os dias no mundo.

         Assim se acabou a garota Mariana, que um dia prometera a si mesma que seria feliz.

         Mas ela, no final, voou.