sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O Segredo

 

 O mar dormita. As fracas ondas parecem bocejos. Mas na verdade são saudades. Lânguidas saudades de um tempo que foi embora; nem lágrimas nem gritos nem arrependimentos, nada o fará voltar. Nada o comoverá.
 O tempo não volta jamais.
 E você não aproveitou o tempo, não entendeu que nada era impossível quando tinha sonhos brilhantes no peito que às vezes até lhe roubavam o sono.
 E agora, José? 
 Você devia ter insistido um pouco mais. Você devia ter sido mais ousado. Devia ter abandonado aqueles velhos ditados, as vidas clichês que o espreitavam com promessas de segurança sem esperança. Você devia ter acreditado naquela conversa de sonhos, de transcender a vida que se vê. Devia não ter acreditado naquelas nuvens escuras que dizem que "isso não vai dar certo".  
 E agora, José? João, Manuel, André? Maria, Juliana, Marta?
 Você, meu camarada e minha camarada, devia ter largado as convenções sociais, ter pensado em você. Não nos outros, não tanto assim. Você sabia que ninguém ia ser feliz por você, que ninguém ia sentir a dor que você sentiria por não viver. Você sabia que a vida era difícil, mas que aconteciam coisas inacreditáveis. E não precisavam ser só com os outros.
 Você sabia que teria que suar sangue para conseguir, mas que esse sangue valeria a pena.
 E agora?
 Você sabia que esse dia chegaria. No fundo sabia. Esse dia de olhar o mar com rugas nos olhos e ver saudades, apenas saudades. 
 Você não teve coragem. 
 Você não desafiou a si mesmo. 
 Você não tentou!
 E assim a vida passou calmamente por você, com aquela promessa de segurança que parecia suficiente. Felicidade verdadeira era arriscado. Sonhos, para desvairados. Ser quem se é? Você precisava, primeiro, sobreviver. 
 Você sobreviveu muito bem. Nada lhe faltou, do básico que se deve ter. 
 Mas você sabe que não queria só o básico. E que sua alma precisava de mais que o básico, ela pedia todo dia e você fingia não ouvir. Entre calçadas, despertadores, bares e TV, você fingia não ouvir. 
 Sua alma queria te ver feliz. 
 Mas você não largou tudo e tentou. 
 Você é como o mar, agora: bocejos e saudades. 
 O tempo não volta.
 Finalmente você entendeu. 
 O tempo é um trem bala, você percebeu. 
 Você devia ter se escutado. 
 Você devia ter se acreditado.
 Você devia não ter tido tanto medo.
 O medo é muito mais inofensivo que o arrependimento. 
 Que lhe resta?
 Quem sabe inventar um sonho, um sonho derradeiro. 
 Agora que você sabe que não se pode perder tempo fazendo o que os outros fazem e sendo o que os outros são. 
 A gente tem que ser como o mar: infinito, profundo, incompreensível, encantador!
 A gente tem que ser, no mar de si mesmo, pescador.
 Agora você sabe. 
 Mas agora talvez seja tarde...
 Ou quem sabe ainda não! - brada seu coração.
 Seu coração envelheceu mais que seu rosto. 
 Você acredita em sonhos, ainda?
 Você tem medo do medo?
 Você finalmente entendeu o segredo. O velho segredo do mar, que ninguém pode contar.

2 comentários:

  1. Belíssimo poema! Filosofal!

    Em resposta, compilo um que gosto:

    alguma coisa - (Charles Bukowski)

    estou sem fósforos.
    as molas de meu sofá
    estouraram.
    roubaram minha maleta.
    roubaram minha tela a óleo de
    dois olhos rosados.
    meu carro quebrou.
    lesmas escalam as paredes de meu banheiro.
    meu coração está partido.
    mas as ações tiveram um dia de alta
    no mercado.

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  2. Encontrei seu blog ao acaso fazendo uma pesquisa sobre "O segredo" no Twitter, pois estou divulgando o artigo que escrevi sobre O Segredo da Rhonda Byrne.

    Que achado. Gostei muito do seu estilo. Vc tem uma sensibilidade muito legal para escolher cada palavra. Escreve muito bem parabéns. :)

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