quarta-feira, 18 de junho de 2014

Eles (Nós)


Eles estão aí, nos bares à meia-luz nas quartas-feiras, bebendo a redentora cerveja, aí nos cinemas sonhando com histórias perfeitas em que sempre tem recomeço, estão nos engarrafamentos do rush ouvindo baladas românticas em armaduras chamadas carros, e eles correm velozes como para chegar logo a qualquer lugar, mas quase sempre não o lugar certo, e estão nas portas das noitadas na madrugada, cigarros baratos com bebidas dóceis que devolvem a alegria cedo perdida, e sorrindo por fora e se afogando por dentro, e um abraço ou um beijo seria uma maneira simples de curar, mas não é tão simples de se encontrar, e abraçando coisas eletrônicas que tem promessas falsas, e eles vegetando em suas casas, quartos-labirintos abrigando instintos incompreendidos, eles estão contando piadas e se sentindo também palhaços, estão cansados, embora tanto corram, formigas, e sabem todas as coisas de sobreviver hoje em dia, mas veja bem, viver não é sobreviver e poucos percebem isso com o impacto necessário, e eles estão então nos shoppings enchendo sacolas como seus corações se encheram de mágoas e tristezas, e estão lendo livros que falam de princesas, e príncipes, e magias capazes de criar outros mundos, e estão mudos, mudos diante de tanto barulho nos outdoors e nos números tão exatos, eles estão esperando alguma coisa, insensatos, todo mundo espera no fundo alguma coisa, essa coisa vem dia e vai dia, vadia, vai indo embora, adeus cruel, mas a vida diz que não é por querer, mas e a culpa por tudo o que você – não – fez, e essa coisa que você procura, eles procuram, nós procuramos, capaz de dar sentido ao que é breve, estranho e até humano, isso chamado vida, isso chamado "eu", isso capaz de saber tudo sem explicar nada, e explicar tudo sem saber nada, isso que de fato é a existência da alma, é apenas isso, milhares e bilhares de almas nas calçadas, isso que a gente procura e às vezes encontra e às vezes até mantém, porque a felicidade aparentemente existe, acreditemos, isso que a gente procura em tudo como impuros cegos, isso, isso que dizem haver nos bares à meia-luz, nos cinemas, nas baladas e nas noitadas, e telas frias inventadas, e casas velhas amarrotadas, isso que eles procuram, que a gente procura e que deve ser a maior loucura imaginável é esse tal de amor, mas onde ele está, e qual é a cura para a própria cura?



Créditos da imagem: We Heart It

5 comentários:

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  2. Amei! Você conseguiu expressar essa sensação de vazio que parece atormentar a maioria dos jovens e adultos. Parece-me que há uma procura por amor do maior número de pessoas possíveis, e então ficam se alimentando de "curtidas" nas vidas sociais e interagindo superficialmente com as pessoas. Como consegui um afeto verdadeiro de alguém que a gente mal conhece? E não se deixa conhecer? Acredito que há uma grande ambiguidade, pois eles buscam por uma liberdade mas não conseguem se desprender dessas regras criadas pelas sociedades, tipo "tem que beber, tem que pegar x pessoas, tem que ser rico, tem que mostrar que vive na balada etc.

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  3. Oi Leila,

    O meu nome é Rafa Lombardino e sou tradutora no site BrazilianShortStories . com, que é dedicado a traduzir contos brasileiros para o inglês. Temos uma parceria com o Cronópios e gostamos do seu texto "Duas" (http://www.cronopios.com.br/V1/cronopios_responsive/content.php?artigo=11785&portal=cronopios), então gostaríamos de saber se você está interessada em ver o seu conto traduzido para o inglês e publicado lá no nosso site.

    Quando puder, fale com a gente pelo e-mail contact @ brazilianshortstories . com

    Até mais,
    Rafa Lombardino

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  4. Leila, seu blog esta lindo. Suas palavras conseguem alcançar a alma.

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