sábado, 18 de janeiro de 2014

Azul é a cor mais profunda


Adéle na piscina: azul profundo.


Finalmente assisti ao badalado filme francês Azul é a cor mais quente, do diretor franco-tunisiano Abdelatiff Kechiche, filme vencedor da Palma de Ouro de Cannes 2013. Já tinha ouvido falar das cenas de sexo explícito entre duas mulheres – aparentemente nunca vistas com tanta ousadia em filmes não eróticos –, e de como o filme não era sobre um amor homossexual, mas sobre uma garota chamada Adéle. A protagonista é vivida pela atriz que também se chama Adéle, mas o sobrenome é Exarchopoulos. O que posso dizer é que, primeiro, as tão afamadas cenas de sexo, longas e cruas, confirmaram o que eu tinha ouvido falar do filme. O sexo pelo sexo, os líquidos, as respirações, as peles se tocando, os orgasmos, a criatividade na hora de tentar se unir em corpo e alma a quem se ama. Segundo, fiquei impressionada com a dramatização da atriz Adéle, que representou a garota Adéle.


 Temos uma garota com cabelo azul no filme, uma dyke (lésbica masculinizada), cuja cor das madeixas até dá nome ao filme em inglês: Blue is the warmest colour, e em português: Azul é a cor mais quente. No entanto, o original é simplesmente A vida de Adéle, e o filme conta sobre Adéle em seus conflitos de uma forma não melodramática demais e nem frívola demais.



Adéle, à esquerda, e Emma, à direita: sem melodrama.


Léa Seydoux, que vive Emma, o par de Adéle, a garota de cabelo azul, é uma ótima atriz e conseguiu imprimir um estilo diferenciado – um masculinizado que não chega a ser brusco ou muito caricato –, mais como um estilo alternativo de uma artista do que como uma dyke. Mas os holofotes certamente incidem sobre Adéle Exarchopoulos, o sobrenome difícil que caracteriza essa garota cujo rosto passa o filme inteiro sendo focado, demonstrando suas expressões, seu olhar, seu vazio, ou melhor, não seus, mas de Adéle do filme.


Emma beija Adéle: sexo com carinho e ousadia.


Notei também que os conflitos da personagem Adéle são explorados através da culinária: o jeito de sua tradicional família preparar comida e comer, e portar-se à mesa, e o jeito da descolada família de Emma, o oposto em seus hábitos que reflete o oposto na mentalidade. Come-se muito macarrão, em diversas ocasiões, e cada pessoa ou cada grupo come de um jeito, ou seja, também se conhece quem somos em nossos instintos básicos, como comer e fazer sexo. Como o jeito de amar. Amar é como comer, cada um tem o seu jeito. Às vezes o macarrão é comido cuidadosamente, com reparos, outras vezes vorazmente, com alegria e despretensão ou angústia. E o mais interessante: o cabelo de Adéle. Acho que o filme poderia também se chamar “A vida do cabelo de Adéle”. Ela nunca resolve seu cabelo, desde a escola até anos após, até o fim da trama. Quando ela se afasta de Emma, ela ajeita seu cabelo progressivamente, penteia, arruma, ou seja, é como se ela estivesse se adequando a convenções e amadurecendo. Cabelos, cabelos... É o cabelo azul – diferente e exuberante – de Emma, e também seus olhos azuis (azul é a cor mais quente) que encontram o cabelo desgrenhado e desprezado de Adéle, que não se considera bonita e não sabe bem quem é, assim como não compreende seu cabelo. O cabelo é símbolo da feminilidade, o ornamento da mulher. É sedução. Nossos cabelos são quem somos. Nossos jeitos de comer e de fazer sexo são quem somos. Nossos pequenos detalhes. Não vou contar o fim, não é um filme hollywoodiano do qual se possa supor o desfecho. É um desfecho, como todo o filme, que nos leva a nos aproximarmos de Adéle – a personagem, e talvez a atriz.

Adéle, a atriz, tinha 18 anos quando gravou o filme. É claro que “a pérola é a obra-prima da ostra”, como disse Rubem Alves, o artista dá de si mesmo para interpretar. E Adéle é uma atriz rica. Sua personagem é de uma complexidade encantadora. Do começo ao fim do filme, não consegui entender quem é Adéle, a personagem, e acho que esse era o objetivo do filme. Um ser que não resolve seu cabelo, que acaba se apaziguando, que ama, que sofre, que segue a vida. Um ser que se sente só. E, para uma alma sedenta de vida, o azul é sempre a cor mais quente e mais profunda. A cor de um mergulho no mar, para fora da solidão. O mar é infinito, o azul é infinito e algumas pessoas, como Adéle, a personagem – e talvez a atriz – também são infinitas. Não é necessário saber quem uma pessoa é, e esse é o grande encanto das grandes pessoas: não se sabe quem elas realmente são, e nem elas mesmas sabem.  

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Carta de um mestre

Bom dia!

Hoje quero expor uma carta que recebi do poeta Ivan Junqueira no final de 2013, um dos maiores nomes da poesia brasileira, membro da Academia Brasileira de Letras, em reposta ao envio do meu livro de poemas A Queda da Bastilha, 2012, ed. Confraria do Vento - Rio. Fiquei muito feliz com o retorno e o aval de um grande mestre. Vocês podem saber mais sobre o Ivan Junqueira aqui e aqui.

Sobre meu livro A Queda da Bastilha, acesse meu site e conheça melhor!

A carta:

"Minha caríssima Leila: Muito grato por confiar-me seus íntimos "recônditos". Entre outros, o poema "Escorpião" o atesta de forma cabal. Gosto da maneira como você esgrima o verso livre: contida, concisa, mas com a dose cera de liberdade que ele vos faculta, ou seja, sem torná-lo "libérrimo", como certa vez ironizou o poeta Paulo Mendes Campos, "A Queda da Bastilha" é uma estreia promissora, sobretudo para quem veio da ficção. Talento é assim: ignora fronteiras e mistura gêneros. Abraço afetuoso do seu,

Ivan Junqueira.

Rio, I.VIII. 2013"