terça-feira, 27 de setembro de 2016

A confissão do inconfessável

 Bom dia, boa tarde, boa noite!
 Todos os que amam deviam ser perdoados?
 E aqui vai outra crônica do meu livro CORAÇÃO EM CHAMAS. Você pode adquiri-lo em ebook aqui e impresso aqui.
 Boa leitura!
       
           


            Eu li toda a Bíblia a primeira vez aos quinze anos. Certo, isto não é relevante.
E também isto não tem muito a ver (ou talvez tenha) com o que me tornei.
Terá sido isto que me tornei? Um homem esturricado.
Sempre tive a companhia de bons vinhos e me inebriou a boa comida, como apraz aos bon vivants. Mas, por onde começo se nem sei como tudo começou? Se foi tão suave que não vi chegar, no recôndito proibido, no coração da alma.
         Começo com um pedaço de queijo roquefort.
Eu havia apreciado queijo roquefort, o qual não saboreava havia muitos anos, naquela adorável manhã de sol. E então eu a vi a primeira vez, em hora que não sei precisar. Eu, na verdade, primeiramente a ouvi. Que voz! Digo sem prolegômenos que a voz foi um manto de cetim em meu rosto. Fresca, afável, com a delicadeza de alguma coisa que voejava. Como voejava...! Nem muito aguda e levemente grave, um pouco rouca como se cochichasse. Embora ela também às vezes sussurrasse.
         De alguma forma eu sabia desde sempre que, quando eu erguesse os olhos, estaria então me entregando. Irremediavelmente. Quando me engalfinhei nos labirintos quadráticos daquela mulher, que expunha a alma à minha pobre solidão enfeitiçada, vulnerável, foi como se já no começo não houvesse volta. Nem cura.
         Pois eu ergui os olhos, intimamente avisado de que nunca deveria fazê-lo, e a vi como peças de quebra-cabeça por trás da pífia divisória entre nós. Peças de olhos e nariz e boca, e uma pele tão límpida como a água de um riacho doce na mata virgem. Derramada em mim, refrescante.
Jamais poderei esquecer seus olhos. Olhos grandes e negros, oblíquos e dissimulados como os de Capitu. Teria sido ela minha Capitu? Pude sentir as nebulosas magnéticas de seus olhos nos ferrolhos dos meus. Meus pobres olhos enrugados de mais de meio século. E os dela, de uma pomba selvagem nova. Não tinha trinta anos.
         Seu nariz não apresentava defeito, e o arrebitamento mostrava domínio natural. Não era adunco, como meu nariz italiano, nem grande, como o nariz de uma francesa. Era um pequeno bico de ave bela.
         E sua boca...! Não muito espessa, não muito grande, mas muito úmida cor de amora. E às vezes parecia uma cereja. E quando a boca se movia, como gomos de bergamota do céu, eu já quase não a ouvia. Eu era só estarrecimento. Eu ardia.
         Ah, devo dizer que eu sou um padre. Há aproximadamente quarenta anos, um sacerdote do Santo Deus a cumprir votos à Santa Igreja. Entrei no seminário aos dezesseis anos (nem explorei o mundo).
         Não fossem os olhos negros da pomba! De Capitu! Mais negros na pele alva, que até parecia nunca ter sido maculada.
         Mas ela era uma senhora compromissada com o voto do matrimônio. Uma só carne diante do Senhor Deus, até que a morte a separasse. Carregava uma grande aliança dourada na mão esquerda, cujo fulgor logo percebi não poder enfrentar.
         Nem mesmo o fulgor negro de seus olhos, que tinham poder de redemoinho.
         Não direi sob nenhuma hipótese seu lindo nome, que, quando pronunciado, é como solo de flauta. Não ouso pronunciá-lo.
Os padres têm um voto de confidencialidade a cumprir, e coisas como estas se levam para o túmulo. Mas quero explicar por que me tornei o que sou.
         Pois bem, estive falando com excessivo recato. Excessivo recato têm os eclesiásticos, pretendendo talvez neutralizar suas entranhas vulcânicas, suas vontades mais íntimas, suas humanidades, enfim. Não posso falar por eles, falo por mim. O fato é que eu sou um homem sujo. Eu cometi o pecado capital da luxúria com a naturalidade de respirar. Comecei com ela, a luxúria, e alcancei quase todos os outros seis pecados capitais. Tal pecado me tornou seu escravo, de maneira que eu já não vivia sem sua esbórnia.
Eu me tornei um homem imundo. Não melhor que um incestuoso, eu havia me casado com Deus!
Eu sou um homem sujo porque, com todas as forças, desejei e imaginei e possuí em pensamento aquela Capitu, aquela Dalila, aquele demônio que me venceu com tanta sutileza.
Ah, esqueci-me de falar de suas mãos! Como duas aves brancas pairando por vezes em seu rosto, quando me concedia ela o delírio breve de vê-las pousarem. E aquelas mãos, eu as tive em mim milhares de vezes em mente impura, não santificada ao Senhor. Devia eu ter me santificado no começo, nos primeiros beijos no berço do imaginário, e não seria agora tarde demais para voltar ao Paraíso.
         Agora é tarde demais...
         Deus, como pequei! Não assediei crianças, não fui pederasta, não coabitei ou engravidei, mas desejei com a magnitude do universo aquela mulher! Eu a desejei a cada instante. E, como sujo que era e sou, com a força de meu amor eu pensava em deixar a batina um belo dia e fugir com ela para qualquer lugar, onde eu satisfaria todas as suas vontades e não a veria mais chorar. Ela falava em desamor e traições de um bêbado, e ele nem mesmo reparava em como ela se esforçava para agradá-lo. Ela vinha me confiar as canalhices de seu ilustre marido, vereador na cidade com fama de benevolente e pai dos pobres. Ora, benevolente! Por vezes eu estive a um segundo de fazer uma ligação ou escrever uma carta que o reduzisse a pó, aquele salafrário... cujo maior delito era ser proprietário de meu sonho. Dos olhos negros de pomba.
         De Capitu.
Eu toquei seus seios, eu beijei seu ventre, eu conheci os segredos de todos os seus membros enquanto o cetim da voz me cobria de êxtase. E veio o tempo em que não sentia mais remorso por já ser o pecado minha razão de viver. O pecado capital! Imperdoável aos olhos do Pai. Por causa do pensamento, violentei vários Mandamentos do Senhor: cobiçar a mulher do próximo, furtar meus princípios, ter outra deusa diante de Deus, fazer dela imagem esculpida no coração, cometer adultério com o Pai, dizer falso testemunho contra o próximo... e matar. Este último pecado explicarei melhor.
É que, inicialmente sem perceber, eu fui vítima de meus instintos animalescos e de meus sentimentos opróbrios; dissimulei aquela mulher de seu caminho santo. Pois em vez de, como bom sacerdote, exortá-la a manter o voto sagrado do casamento diante do Senhor, como pastor que cuida da sua ovelha, eu a chafurdei em minha própria lama de alma perdida. Tornei-me capaz de renegar ao Senhor por aqueles gomos de bergamota do céu que se moviam falando, e aquela pele cuja textura eu experimentava só de vicejá-la.
Tão cruel eu fui enquanto recomendava Pai Nossos e Ave Marias a ela que, como o jovem Dorian Gray no clássico de Oscar Wilde, vejo-me um monstro deplorável no fim. Terá minha alma ainda salvação? Creio que não...
Houve um dia em que os olhos negros de pomba, com a boca cítrica, me disseram que ela iria embora de casa. Qual não foi minha demoníaca felicidade a de saber que agora eu poderia... poderia o quê? Se jurara a Deus castidade e devoção total. Eu já ultrapassara a barreira frágil da sensatez. Um coração é um leão na iminência de acordar, pretende devorar.
Mas ela não foi. Duas semanas se passaram, um mês, dois meses... Das carolas mais assíduas, ela costumava se confessar ao menos uma vez por semana. Nos outros seis dias eu me desgastava esperando-a engaiolado nas paredes vetustas da igreja. E já nem ouvia as demais confissões, no hermetismo distante do entorpecimento. Como se eu fosse outro, um animal. Pode um padre contemplar todas as noites o corpo sagrado e intocável de uma mulher casada? Pode um padre... amá-la? Como um homem, e não um sacerdote ama uma mulher.
Pois foi que de repente vi que a amava e, como presumira na primeira vez em que a encontrara, não haveria volta. Desde que eu erguera os olhos e a vira, e me deparara com o anjo-demônio quadriculado e perfeito para meu devaneio, eu estava entregue. Perdi-me, o Príncipe das Trevas me venceu, vou ao inferno, imperdoável e miserável sobre uma garrafa vazia de rum, mas me deixe antes terminar.
Eu estou preso. Esta cela fede, mas eu mesmo a contamino com o odor fétido da maldade. Exalo por todos os poros a essência de Caim e a putrefação de Sodoma e Gomorra.
Eu estou preso porque matei um homem e uma mulher, com balas certeiras, uma em cada cabeça. Eles dormiam, eu estourei seus miolos e o próprio demônio me possuiu, como a Judas, quando senti súbito alívio. Quis gargalhar. Lembrava-a dizendo que amava o marido com todas as forças, apesar de tudo, e o amaria para sempre. Era legítimo meu sofrimento ao vê-la inatingível. Ela me matou antes! Ela me matou antes... Pois, agora, amá-lo-á para sempre nos braços ternos do Senhor, e eu vou ao inferno com alma imunda de assassino pecador. Sinto as chamas gritando meu nome, Deus já não me ouve.
Não tenho certeza se foi ela capaz de sentir qualquer coisa, mínima coisa por este velho padre cujo coração está condenado. Já não posso almejar nada, se entreguei meu coração desprezível ao tribunal do Senhor. A meu favor, não fui hipócrita, como muitos. E não fui falso comigo mesmo. Formidável defeito teria sido minha perfídia! Sofrem, e fazem sofrer menos os falsos, que até a seus verdadeiros desejos ludibriam.
Consegui esta garrafa de rum por meios escusos, a fim de escrever minha carta.  De despedida? Uma troca de favores, em qualquer lugar se consegue um acordo para aplacar a dor. Não a dor do pecado, porque a lama da minha alma já enterrou a culpa e me conformou. A dor, a maior dor final minha é a de não tê-la tido, e nunca poder tê-la... Ela não estará no inferno. Busquei o alívio de não mais vê-la e não ter a ânsia de tocá-la. Suplício!
         Vendi minha alma ao diabo por amor. Não vale nada meu amor, e eu me tornei um louco. Mudei apenas de prisão: antes confessionário, agora cela. Que diferença faz? Se minha alma sempre esteve presa a ela, e ela ainda está aqui. Talvez pedindo a Deus misericórdia de mim...
         Não cobiçai o amor alheio. Não escutai demais... não erguei os olhos.
         Eis minha carta de despedida. Uma corda e uma cadeira me esperam, entrego minha alma à sentença irrevogável do Santo Deus.
         Não me arrependo de ter amado, e ainda amar, e meu destino não ultrapassará o purgatório.
         À minha amada, peço perdão por tê-la levado a Deus mais cedo.
         “Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu... Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos...”.
         Livrai-me do pecado inconfessável do amor!
Amém.

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