segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Todas as cartas que eu li...



         Recentemente, fui mexer em algumas gavetas e cadernos velhos e encontrei... cartas. Cartas escritas à mão, de mim para mim, de mim para meu terapeuta, meu pai, minha mãe, amores... Cartas que eu não mandei. (Com quantas mais eu o fiz! Mas algumas cartas são escritas para nunca serem mandadas.) Dei uma lida nelas, assim por cima. Ora, quem ainda escreve cartas? Eu. Eu escrevo cartas, e sempre escrevi. Mesmo quando a ordem já era e-mail e mensagem de celular e WhatsApp.

            Há algo de mágico em uma carta. Algo de, eu diria até, atemporal. E mais, sentimental. Recôndito. Único. Não só os traços da letra, que mostram a pessoa que a desenha, mas um pouco do odor – mesmo que imaginário – de quem escreveu que ficou ali, ou um perfume, que eu, por exemplo, costumava borrifar em minhas cartas (atenção! Tem que ser antes de escrever, ou a letra borra. E nada em excesso é bom!). Eu escrevo cartas quando envio meus livros a pessoas especiais. Talvez um autógrafo seja uma pequena carta. Uma vez, enviei meu livro Reencontro, autografado, a três membros da Academia Brasileira de Letras (um deles já falecido, Ivan Junqueira): todos eles me responderam não com e-mails, mas com cartas timbradas escritas à mão! Achei lindo! Escritores, os verdadeiros, e os sensíveis, que não veem apenas um pássaro, mas uma dádiva que nos ensina a liberdade sem medo, precisam escrever cartas... 

            Eu vivi aquele tempo – antes dos anos 2000 e no começo deles – em que era mais fácil escrever e receber cartas escritas sem teclas. Para/de amigos, familiares, amores, muitos deles platônicos (estes adoram cartas); às vezes você pode escrever simplesmente para si mesmo, para depois guardar no fundo de algum lugar ou jogar fora para sempre. Eu lembro que tinha uma sacola cheia de cartas – recebidas, e algumas não enviadas. Eu lembro que fiz amigos pela Internet, nos primórdios dela, e mesmo assim conversávamos por carta. E como era magnífico receber uma carta, mesmo que após longo tempo, com letra à mão, cheiro, textura e visual próprio. Às vezes elas vêm com objetos... surpresas... Um pedaço de quem as escreveu. 

            Não que eu seja dessas contra a tecnologia, que acham que “antigamente era melhor” e tal. Viva os emoticons, as letras Arial, Times New Roman, negrito, itálico, as redes sociais, aplicativos de celular, SMS, mas... eu sinto falta das cartas escritas à mão. As cartas são nostálgicas por si só. Os escritores de cartas também sempre foram. Acho agora que boa parte das histórias clássicas – da literatura e do cinema – têm cartas pessoais em seus enredos. E como é elegante uma carta! Ainda que com remetente desconhecido – o que também é adorável, e talvez perigoso. Como em E não sobrou nenhum, que era antes O caso dos dez negrinhos, de Agatha Christie: dez pessoas recebem uma carta de um desconhecido, convidando-as a compareceram à enigmática Ilha do Negro. A carta do Sr. Darcy para Lizzie, em Orgulho e preconceito, que começou a mudar seus destinos. Central do Brasil, um dos filmes brasileiros de grande sucesso mundial e inúmeros prêmios, em que Fernanda Montenegro era uma mulher que escrevia cartas para analfabetos (naquele tempo se escreviam mais cartas). Lembro-me da primeira cena, em que aquela simples mulher chorava e ditava “eu te amo”... E tem um livro que tá fazendo muito sucesso, da contagiante Jojo Moyes: A última carta de amor, sobre cartas trocadas em um passado distante e redescobertas. 

Cartas, cartas, como devíamos precisar delas! E nunca perder a delicadeza de escrevê-las, e lê-las...

Cartas de pessoa para pessoa. Escritas à mão. Mesmo que as notícias sejam más. Talvez a própria carta seja, em primeiro lugar, uma boa notícia de saudade. Só sentimos saudade de quem é importante.

Quanto às cartas que eu encontrei, joguei fora todas.

Nada mais inesquecível que uma carta. E às vezes lembrar dói. Ou assusta, ao menos.

Pergunto a uma estrela: pessoas que ainda escrevem cartas, de que mais serão capazes?

Quem sabe, até de amarem à moda antiga...



Nenhum comentário:

Postar um comentário